Voltaic Trio: “290421” (Phonogram Unit)

Rui Eduardo Paes

O título deste primeiro álbum do trio de Luís Guerreiro, Jorge Nuno e João Valinho remete-nos para a numerologia, uma variante do esoterismo que procura estudar a relação oculta existente entre a matemática, os seres vivos e as forças físicas. Tem um âmbito divinatório que procura ser mais preciso do que, por exemplo, as cartas de tarot. Há números, métricas contáveis, também na música, e o que se poderia entender, por antecipação, é que a destes Voltaic seria um exercício numerológico. Vem, no entanto, em “free form”, e esta é uma condição da catarse obtida, algo que alia avant-jazz e psicadelismo, sempre em dissolvência numerológica, de pulsação e de contagem. A este nível, o que se possa esotericamente descobrir perde-se no instante seguinte. A haver uma “verdade” escondida, esta escapa-se-nos. Nada é fixável, os números sucedem-se anarquicamente, como num temporizador enlouquecido. Um temporizador que nunca pára no 0’ 00’’ e não chega a anunciar a explosão final, por mais que dela a tensão criada se aproxime.

O trompete altamente processado de Guerreiro parece um Jon Hassell numa má “trip” de ácidos, a guitarra de Nuno inocula death e black metal nos blues do deserto do stoner rock e a bateria de Valinho corta definitivamente com a ideia de que as batidas em peles e pratos vêm directas do coração: se viessem, só uma apoplexia fulminante resultaria. Os algarismos 290421 não nos fornecem uma fórmula: depressa mudam para 499153 ou 168703. Se persistência matemática existir é em estado de estrutural esquizofrenia. Catatónica: imaginamos um olhar parado, sem brilho, mas por detrás das íris dançam mil diabos. O que está oculto aí para sempre permanecerá. Nada chegaremos a saber das personalidades destes três enigmáticos músicos e do seu toca-e-foge que mostra sem mostrar. Pois ainda bem, porque deixam-nos com curiosidade quanto ao que farão de seguida.