1975

The Fourth World Quartet: “1975” (Cuneiform)

Cuneiform

António Branco

Três quartos do The Fourth World Quartet (Benjamin, Laurence e Roger Miller) cresceram em Ann Arbor, Michigan, e despertaram para a vida durante o “verão do amor”, quando os White Panthers – partido político de extrema-esquerda constituído sobretudo por jovens brancos – agitavam a sua cidade natal. Formam a sua primeira banda em 1967, fazendo versões de 13th Floor Elevators e Mothers of Invention. Nesse mesmo ano, do outro lado do Atlântico, nos estúdios de Abbey Road, os Beatles gravavam “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” paredes meias com os Pink Floyd, que, no estúdio 3, davam corpo ao seu magistral álbum de estreia, “The Piper at the Gates of Dawn”, ainda sob a batuta criativa de um Syd Barrett prestes a colapsar mentalmente, à conta de abusos ácidos e de uma esquizofrenia prévia não cabalmente esclarecida.

Um par de anos mais tarde, de antenas abertas ao mundo, os irmãos Miller fundam os Sproton Layer e embarcam em aventuras com o rock de feição mais experimental, feito de longas improvisações e de ligações ao free jazz. No verão de 1970, gravam “With Magnetic Fields Disrupted”, disco que só veria a luz do dia em 2012, graças à editora alemã World in Sound. Naqueles tempos, podiam assistir a um concerto, vespertino e gratuito, dos MC5 (formação de Detroit, cujo guitarrista, Wayne Kramer, era um fervoroso apoiante dos White Panthers) e à noite ir ouvir Karlheinz Stockhausen na Universidade do Michigan. Anos mais tarde, o Festival de Blues e Jazz de Ann Arbor, co-produzido pelo poeta, dirigente político (dos White Panthers) e antigo crítico de jazz John Sinclair, também desempenharia um papel decisivo para a construção da sua ampla mundividência sonora.

Em 1975, os três Miller decidem frequentar o Thomas Jefferson College, uma pequena escola de arte algures no Michigan, de onde Benjamin e Laurence partem para Boston, fase em que estão completamente imersos no jazz de Eric Dolphy e Anthony Braxton. Nos Nova Mob cruzam caminhos com Don Davis (mais tarde no Microscopic Septet), enquanto Roger, de regresso a Ann Arbor, levou mais longe o seu interesse pela música de Béla Bártok e Igor Stravinsky. Neste dédalo de referências entre um rock de matriz psicadélica, o free jazz e a música de recorte erudito, e com a chegada do colega de escola Jack Waterstone, nasce o Fourth World Quartet.

Todos compõem e arranjam utilizando diferentes técnicas, desde peças detalhadamente escritas até partituras gráficas ou simples instruções verbais. O peculiar universo sonoro do grupo, fixado para a posteridade neste “1975” (em boa hora resgatado do olvido pela Cuneiform), muito deve à inusual configuração instrumental, com dois ou três sopros (geralmente dois saxofones alto e clarinete baixo, com pontual utilização de corneta), piano e a guitarra de Benjamin Miller – sem secção rítmica (apenas numa peça se escutam percussões).

O material que aqui se escuta foi preparado apenas em algumas semanas e constitui mais do que um legado de inegável valia. O grupo apresentou-se ao vivo somente em duas ocasiões e não durou muito, apesar de ter lançado sementes que medraram em diversos projetos futuros. Tudo o que remeta para abordagens convencionais é pura coincidência. Explorações melódicas intervalam com espasmos atonais, formas rigorosamente estruturadas contrastam com improvisações mercuriais, passagens etéreas equilibram outras de grande intensidade sónica.

A abrir, “Reverse Coil Distinction” tem o piano tranquilo a preparar o terreno para a entrada dos sopros e da guitarra elétrica que logo baralham os sentidos. Quem sabe se influenciados pela lendária aparição dos Floyd no anfiteatro vazio da cidade arrasada em 79 d.C. pelo Vesúvio, em “Pompeii” as notas solenes de piano evoluem para um caos organizado, com sopros em torvelinho e guitarra abrasiva, que serena e depois reemerge acossada pelos gritos lancinantes do alto de Waterstone.

A vertiginosa “The Transformation of Oz” (da autoria de Roger Miller, que, tal como “Winter´s Dream”, aparecerá no registo de estreia dos Birdsongs of the Mesozoic, fundados em 1981) dá lugar à mais contemplativa “Alone in Allendale”. Um dos momentos mais interessantes acontece em “Journey to Bubbleland” com os ziguezagues dos altos e do clarinete baixo a servirem de rampa de lançamento para um solo explosivo de matriz ornetteana.

“Winter's Dream” (depois rebatizada “Triassic, Jurassic, Cretaceous” no álbum dos Birdsongs) assenta em uníssonos piano-guitarra dos quais brota um “ostinato” de piano que funciona como pilar em torno do qual gravitam os demais instrumentos, num crescendo de intensidade. O caráter mais fragmentado de “Ambrosia Triangle” serve de ponte entre a atmosfera onírica do arranjo de Laurence Miller para “Tnoona”, do Art Ensemble of Chicago, e o ambiente festivo que Roger Miller engendrou para o tema principal da mini-ópera de Stravinsky, “Renard the Fox”.

Com o advento do punk, em 1977 Laurence (enquanto guitarrista) e Benjamin Miller retomam as raízes rock e em Detroit integram os Destroy All Monsters com Ron Ashton dos Stooges e Michael Davis dos MC5. Dois anos mais tarde, em Boston, Roger co-funda (também como guitarrista e vocalista), os Mission of Burma, formação seminal do movimento indie-rock da cidade.

Elo perdido numa história feita de cruzamentos e contaminações estéticas, “1975” é um álbum com muito por descobrir, aconselhável sobretudo a quem não se deixa tolher por purismos.

  • 1975

    1975 (Cuneiform)

    The Fourth World Quartet

    Benjamin Miller (saxofone alto, guitarra elétrica); Laurence Miller (clarinete baixo); Roger C. Miller (piano, percussão, corneta); Jack Waterstone (saxofone alto)