Jesup Wagon

James Brandon Lewis Red Lily Quintet: “Jesup Wagon” (Tao Forms)

Tao Forms

António Branco

Ao forjar um universo sonoro idiossincrático, no qual interpela a história (e a pré-história) do jazz cruzando-as com a exploração de uma miríade de interesses pessoais, James Brandon Lewis (n. 1983) passou com distinção de promessa a concretizada certeza e é um dos mais estimulantes saxofonistas do nosso tempo.

Conceptualista na esteira das obras programáticas de Duke Ellington e com uma abordagem ancorada no fértil legado coltraneano – do seu pecúlio fazem parte discos essenciais (apesar de sempre diferentes, deteta-se neles um fio condutor) como “Divine Travels” (Okeh, 2014), apadrinhado pelo contrabaixista William Parker, “Days of Free Man” (Okeh, 2015), “Radiant Imprints” (Off, 2018), “An Unruly Manifesto” (edição de autor, 2019) ou “Molecular” (Intakt, 2020), este último a base para o superlativo concerto com que nos brindou na edição de 2021 do Jazz em Agosto na Fundação Calouste Gulbenkian.

O músico, originário de Buffalo e desde 2012 radicado em Nova Iorque, regressa com o Red Lily Quintet no álbum “Jesup Wagon”, o seu nono, desta vez com selo da Tao Forms, editora dirigida criativamente por Whit Dickey e «dedicada ao jazz de natureza iluminada». O novo registo é inspirado no trabalho e na visão pioneira do botânico, inventor, agrónomo e escritor (também pintor e músico) afro-americano George Washington Carver (1864-1943), um verdadeiro homem do renascimento numa América segregada. Nascido como propriedade legal de outro homem em plena Guerra de Secessão, na cidade de Diamond, Missouri, era infante quando a 13.ª Emenda aboliu a escravatura nos Estados Unidos. Estudou música e artes plásticas, e depois engenharia agrícola e viria a ficar conhecido pelos esforços desenvolvidos para promover plantações que constituíssem alternativas ao algodão, como as de amendoim e batata-doce.

De enorme atualidade, o tema da sustentabilidade da agricultura foi a preocupação central de um homem à frente do seu tempo. As “liner notes”, da autoria do historiador e professor da UCLA Robin D.G. Kelley (que em 2009 lançou a monumental biografia de Thelonious Monk, “Thelonious Monk: The Life and Times of an American Original”) são imperdíveis. O título do álbum remete para designação da carroça que funcionava como laboratório e sala de aula ambulante e que permitiu a Carver ensinar os agricultores do Alabama a melhorar as suas práticas agrícolas (cujo desenho, da autoria do próprio, cedido pelos Arquivos da Universidade de Tuskegee, se reproduz na capa) e que deve o seu nome a Morris K. Jesup, o banqueiro de Nova Iorque que financiou o projeto.

Acompanha-o nesta jornada um grupo “all-stars”, de que fazem parte o virtuoso cornetista Kirk Knuffke, o veterano e sempre influente contrabaixista William Parker, o violoncelista Chris Hoffman (que conhecemos sobretudo do seu trabalho com Henry Threadgill) e o baterista Chad Taylor (o único membro desta formação que esteve em Lisboa com Lewis).

O disco abre com o tema-título, introduzido por um belíssimo solilóquio de Lewis, a que se juntam os demais músicos, avultando as danças entre saxofone e corneta suportadas por uma secção rítmica em permanente ebulição (Taylor soberbo), com reminiscências das “marching bands” de Nova Orleães, de que emana um solo do saxofonista que de certa forma lembra as deambulações de um Pharoah Sanders. O tom mais espiritual de “Lowlands of Sorrow” parte de um motivo proposto pelo gimbri (espécie de alaúde retangular de três cordas utilizado pela etnia gnawa de Marrocos), que Hoffman contrasta no violoncelo, acendalha para o dinamismo rítmico que suporta as interações de parada e resposta entre Lewis e Knuffke. Uma realidade distante do Alabama onde Carver trabalhou, mas vincando o propósito do saxofonista de estabelecer um elo com a ancestralidade africana.

De contornos camerísticos, “Arachis” (um tributo ao ciclo de vida do amendoim, de nome científico Arachis hypogaea, que em larga medida devemos aos estudos de Carver) assenta numa bela melodia que paulatinamente vai ganhando a densidade ideal para lançar um solo flamejante de Lewis (a lembrar David Murray, em apertada ligação ao “drive” assegurado pelo baterista), a que se segue um outro do cornetista, desembocando, após reagrupamento da formação, num final lamentoso.

Ponto alto são os jogos contrapontísticos logrados na construção da magistral “Fallen Flowers”, que adquirem diferentes matizes, encerrando com a poesia escrita e declamada por Lewis, sobre a vida e a morte: «Streams of tears run through trails of unseen landscapes / Soulless water never seems to dance like ballerinas / Raindrops of a thousand needles pierce skin / A punctured heart / A collapsed wall amounts to ‘I don’t give a damn’ / Talking plants hug resilient vessel.» “Experiment Station” vive de uma intensa vibração polirrítmica de que brotam outras duas poderosas intervenções de Lewis e Knuffke, embora o que mais acabe por impressionar seja o inesgotável pulmão de Taylor (que a dado momento é coadjuvado por Parker e Hoffman). A melodia central é retomada num final glorioso.

A melodia luminosa de “Seer” radica numa ideia lançada por violoncelista e contrabaixista, com um colorido extra providenciado pela mbira, outra referência africana, substrato para os diálogos entre os sopros. As articulações que se escutam na metafórica “Chemurgy” (área da química aplicada dedicada à utilização industrial de matérias primas, como os óleos vegetais, hidratos de carbono e proteínas, oriundas de produtos agrícolas) trazem à memória todo um lado poderosamente emotivo que imediatamente associamos à música um dia engendrada pelas duplas Ornette/Cherry e Ayler/Cherry. O uso do gimbri e os cânticos subliminares que se escutam em fundo conferem à musica um forte apelo emocional.

“Jesup Wagon” é um álbum obrigatório cuja riquíssima relojoaria nos surpreende a cada instante.

  • Jesup Wagon

    Jesup Wagon (Tao Forms)

    James Brandon Lewis Red Lily Quintet

    James Brandon Lewis (saxofone tenor, composição); Kirk Knuffke (corneta); Chris Hoffman (violoncelo); William Parker (contrabaixo, gimbri); Chad Taylor (bateria, mbira)