Vessel Trio: “Responde Tu” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Cubano e espanhol de origem, respectivamente, Hery Paz e Javier Moreno trocaram as suas estadias em Nova Iorque pelo mais calmo Portugal e aqui vêm marcando gradual presença. Neste disco em trio com o baterista Marcos Cavaleiro, o saxofonista (tenor) e o contrabaixista têm pleno espaço para marcar a diferença que trazem para a cena nacional, tal como já o tinham feito nos Estados Unidos, o primeiro com Fred Hersch, Thomas Morgan, Kris Davis, Ralph Alessi, Tom Rainey ou Joe Morris e o segundo com Tim Berne, Tony Malaby, Mat Maneri, Craig Taborn ou Gerald Cleaver. O que agrada logo no fraseado de Paz é a forma como desenvolve as suas ideias com paciência, não querendo mostrar tudo de uma vez. Notam-se-lhe algumas referências em Ornette Coleman, mas incorporadas na dívida primeira que tem para com a história do tenor, recuando muito para trás de Sonny Rollins, John Coltrane e Albert Ayler. Tem uma abordagem cantante que preza a nuance e o pormenor e que parece ser sempre pensada. Moreno não é apenas um ritmista; escolhe muitas vezes um papel de harmonização e o seu dedilhar é habitualmente melódico. Quanto a Cavaleiro, estamos há muito conversados: é um dos nossos melhores bateristas e ninguém o bate no trabalho com os pratos.

O formato sopro-baixo-bateria do Vessel Trio é, logo à partida, um garante de liberdade, e fácil seria categorizar a música deste “Responde Tu” como free jazz, ou pelo menos pós-free jazz. Seria facilitar demasiado os termos: a liberdade, no caso, define todas as dimensões do projecto. Assim como há momentos (“Mezcal”) em que é a textura que dita os parâmetros tomados pela improvisação, noutros assume-se por inteiro um tonalismo/modalismo que não teme a melodia, antes a abraça como uma estratégia, a exemplo da faixa-título e de “Agno 3”, por sinal as mais colemanianas. Momentos há em que nos aproximamos da “fire music” que faz as delícias da revista Wire, mas são aqueles em que a combustão é lenta que mais nos cativam. É aí que retemos as grandes valias deste álbum, em termos de dinâmicas, de jogos tímbricos, de urdiduras, de detalhes. Que bom serem os humanos gente migrante e que bom também é o jazz ser uma música de migrações.