André Carvalho: “Lost in Translation” (Outside in Music)

Rui Eduardo Paes

A ideia por detrás do novo “Lost in Translation” do contrabaixista e compositor André Carvalho é assaz curiosa, na medida em que, se o tema é a perda de sentido na tradução de uma palavra numa língua em outra, coloca a questão do que seria colocar em música, a mais abstracta de todas as artes (mas ela também uma linguagem), algo que é do exclusivo domínio verbal. Carvalho fez um levantamento de termos de mais de 10 línguas que não são traduzíveis, ou pelo menos só podem ser explicados por meio de uma frase inteira, para desenvolver um conceito que à partida se recusa a ser programático ou de alguma maneira (des)codificante, preservando a “intraduzibilidade” não-representacional da música, ou seja, a condição primeira desta. Em linha, aliás, com a forma como vem apresentando a sua abordagem pessoal à dita: «Imaginem simplesmente a mistura de um koan Zen com uma pintura de Francis Bacon.»

Ora, a música que ouvimos nas 12 peças reunidas neste álbum tem o carácter distintivo de ser contemplativa, intimista e detalhística, tocada por um grupo sem bateria que se fixa no formato de trio, com o guitarrista André Matos e o saxofonista alto José Soares, a quem, em três dos temas, se junta o trompete de João Almeida. A utilização de espaços e silêncios é recorrente, bem como a de elementos colorísticos e de ruído, num equacionamento da herança do West Coast / cool jazz, via Jimmy Giuffre, com a livre-improvisação (ainda que a escrita domine as performances), a experimentação e a música contemporânea. Daqui resulta um posicionamento “nem, nem” que nos desconcerta, mas também se torna numa delícia, deixando-nos à vontade para fazermos qualquer interpretação. Ou nenhuma, o que é ainda melhor, porque, para todos os efeitos, as palavras dizem pouco (como estas que aqui ficam) e tantas vezes muito menos do que a música.