Conversations #2 & #3

Florian Arbenz: “Conversations #2 & #3” (Hammer Recordings)

Hammer Recordings

João Morado

Depois de “Conversation #1: Condensed”, número primeiro do ambicioso projecto de 12 momentos do percussionista e compositor Florian Arbenz, já objecto de uma recensão aqui na jazz.pt, debrucemo-nos agora sobre a música do seu sucessor, “Conversations #2 & #3”, álbum que reúne as duas seguintes conversas desta complexa construção ainda em fase inicial. É certo que com novas conversas vêm novas formações, mas o que é verdadeiramente interessante é o modo como cada formação desta série incorpora em si mesma uma lógica singularizante. E assim, apesar de estas segunda e terceira conversas serem menos coloridas – menos exuberantes, até -, a uma primeira audição, do que a sua antecessora, não deixam de transparecer a versatilidade de Arbenz, que é, inegavelmente, um percussionista de amplos recursos, e de trilhar caminhos com sentidos próprios, originais, celebrados através de uma partilha de ideias musicais distintas, mas convergentes, que se materializam num jazz contemporâneo, desta vez de faceta maioritariamente improvisacional.

Em “Conversations #2”, Florian Arbenz une, forças com o cornualhense Jim Hart, um dos eminentes rostos da actual montra de percussionistas britânicos que, à semelhança daquele, transpõe a tradição da música clássica para paisagens alternativas e provocadoras, distantes das inerentes estrutura e erudição consubstanciadas na música de pauta. E é através de complexas interacções rítmicas entre os dois percussionistas, por vezes melodizadas, quando também não harmonizadas, por Hart, que se desenvolve esta conversa, aqui reduzida a diálogo, maiêutico e de princípio especulativo, que da desordem cria ordem, iluminando, assim, a essência poética presente naquele espaço-tempo. Os temas apresentados variam entre “simples” motivos rítmicos, inseridos numa teia progressiva de crescente fractalidade, desenhada a partir de referências com bases etno-musicais na África da polirritmia (“Wooden Lines”) e suas particularidades tímbricas (atente-se na escolha de instrumentos em “Freedom Jazz Dance”, original de Eddie Harris), até composições de maior riqueza cromática, as quais ganham vida e cor quando Hart se liberta da vertente puramente rítmica dos instrumentos de lâminas que toca e as eleva a verdadeiras narrativas de contornos misteriosos (“Tryptich”), dolentes (“Homenaje”), contemplativos (“Between Times”) ou fulgurantes (“Evidence”).

O incremento de um novo eixo ao anterior duo, aqui concretizado com a entrada do contrabaixista suíço Heiri Kanzig em cena, dá, a esta outra formação, responsável por “Conversations #3”, acesso a um espaço musical agora tridimensional, o qual é inteligentemente explorado pelo trio. A dinâmica trazida a jogo pelo contrabaixista num simples mas eficiente conceito: reconhecer a sobrecarga cadencial que uma abordagem conservadora ao seu instrumento poderia comportar para o, já de si, bastante compassado duo, o qual beneficia amplamente da adicional veia melódica introduzida por Heiri, que amiúde retoca e enfatiza a imprevisível e verbosa eloquência de Hart, qual artista que pincela por cima da tela já pintada. Neste sentido, a compleição do agora trio é notoriamente mais robusta, sólida, geradora de abundantes oportunidades para solos, tais como os que são ouvidos em “Jammin’ in the Children’s Corner”. Tiradas individuais à parte, a música deste terceiro volume reclama para si o “groove” (“Rhenos”) e a sensibilidade (“Ode to the Sentimental Knowledge”) que haviam trespassado pelos ouvintes ao longo do primeiro, abrindo também espaço à reinterpretação de um clássico (“Epistrophe”), a qual não fez certamente Monk revolver-se no caixão.

Em jeito de dose dupla, “Conversations #2 & #3” reúne conversas contíguas que documentam duas faces de um ainda em construção dodecaedro irregular que, passe a ininteligibilidade da sua concreta forma final, é já merecedor de observação cuidada. Esculturas colaborativas como a que Florian Arbenz tem vindo a desenvolver são sempre bem-vindas, pois abrem a porta a um domínio de possibilidades do qual a evolução pode ser rastreada e partilhada tanto por músicos como pelos seus ouvintes – e isso é tão rico quanto desejável.

  • Conversations #2 & #3

    Conversations #2 & #3 (Hammer Recordings)

    Florian Arbenz

    Florian Arbenz, Jim Hart (percussão); Heiri Kanzig (contrabaixo)