Al-jiçç: “Chants” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Gravado durante o período de confinamento com cada músico em sua casa e depois misturado, o quinto álbum dos Al-jiçç marca o início de uma nova direcção na música do grupo liderado pelo guitarrista e compositor (em “Chants” também em teclados e percussão) Nuno Damião: se as sonoridades do Mediterrâneo, de origem árabe, judaica e cigana, continuam a ser uma marca deste projecto, e se estas servem como mote para um trabalho situado entre o modalismo jazzístico e a improvisação livre, outras cores que não as habituais são ganhas pela música. Reminiscências da fase eléctrica de Miles Davis casam-se com o dub (ganhando a pós-produção de estúdio um papel fundamental nos resultados, em “Zadar” mantendo-se mesmo elementos formais do reggae) e com o ambientalismo de alguma electrónica “lowercase”.

Mais do que isso, há uma diferença de abordagem: os temas foram compostos com um piano eléctrico (muito presente no disco, de resto) e não com a guitarra, com Damião a querer sublinhar neles a vertente melódica, e as improvisações realizadas a partir dos motivos escritos foram submetidas a posteriores manipulação, edição e processamento. O jazz sefardita dos Al-jiçç ficou mais atmosférico e cinematográfico, talvez por isso adoptando uma dimensão evocativa e melancólica que antes não tinha, e também algo mais abstracto e geométrico. Os clarinetes soprano e baixo de Gonçalo Lopes continuam a ser chave na caracterização identitária desta música (oiça-se, por exemplo, o particularmente interessante “Lost Signal”) e a dupla rítmica de Ricardo A. Freitas no baixo eléctrico e Jorge Lopes Trigo na bateria e na percussão apresenta-nos um outro modo de entender o “groove”, agora mais pausado, mas não menos dançante.