Mountains

Javier Subatin: “Mountains” (Habitable Records)

Habitable Records

Rui Eduardo Paes

O percurso do compositor e guitarrista Javier Subatin em Portugal tem sido feito de singularidades, tanto a nível de execução instrumental como na escrita, e estas colocaram-no num lugar muito próprio. Um lugar que anunciava o que finalmente encontramos neste “Mountains”, a obra em que o músico parece ter chegado ao cerne dos seus conceitos e das fórmulas práticas com que os traduz. A complexidade das peças e a visceralidade com que as mesmas nos são entregues em termos de interpretação e de improvisação sobre o que está na pauta, ao invés de parecerem contraditórias, complementam-se: o intrincado converte-se em intensidade expressiva, o “drive” do que ouvimos, a sua energia, o balanço, a fluidez da música, derivam implicitamente dos esqueletos, das construções e das formas. Subatin consegue um equilíbrio de parâmetros notável, unindo cérebro e fisicalidade, e isso não é propriamente comum. Assim como não é comum, entre nós, propor algo que entra muito obviamente nos domínios da música exploratória, mas tem fortes raízes na tradição pós-bop do jazz.

A escolha dos músicos revela-se essencial para os resultados aqui expostos: há um trio base, o que Javier Subatin forma com o sólido Demian Cabaud no contrabaixo e o imaginativo e irrequieto Pedro Melo Alves na bateria, e surgem como convidados pontuais o pianista Samuel Gapp, o violoncelista Ricardo Jacinto e o saxofonista João Mortágua. Fossem outros os intervenientes e os temas soariam de modo totalmente distinto. As contribuições destes chegam a um nível de excelência que é de sublinhar, a exemplo do de Gapp no solo de piano contido em “Mountain #3”. Subatin revela algo que é fundamental para este tipo de abordagem: saber aproveitar as características pessoais dos seus parceiros, inclusive atrevendo-se a contrariar as hierarquias entre líder e acompanhantes e entre os convencionais papéis dos instrumentos, rítmicos, harmónicos e melódicos. Em muitos casos, aliás, coloca-se ao serviço das prestações dos seus companheiros, fazendo-os brilhar.

“Mountains” vai directamente para a lista dos melhores álbuns nacionais de 2021, e não apenas dos de jazz. Da deste ano e sem dúvida que da última década, com uma relevância que ultrapassa fronteiras. É um daqueles discos, raros, que inspiram, que mudam tudo, que ficam para a história. Absolutamente notável e a não perder.

  • Mountains

    Mountains (Habitable Records)

    Javier Subatin

    Javier Subatin (guitarra eléctrica, electrónica, composição); Demian Cabaud (contrabaixo), Pedro Melo Alves (bateria) + Samuel Gapp (piano); Ricardo Jacinto (violoncelo); João Mortágua (saxofone alto)