Entre Paredes

Sexteto Bernardo Moreira: “Entre Paredes” (JACC Records)

JACC Records

Rui Eduardo Paes

A música é de Carlos Paredes, os arranjos do contrabaixista Bernardo Moreira e este disco, surgido depois de muita estrada por parte do projecto, estreia uma nova colecção na JACC Records, a Terra Series. Carregamos no “play” e logo vem mais do que um simples projecto de “jazzificação” da música popular portuguesa. O tema “António Marinheiro” é fronteado por um trompete (João Moreira) num registo melancólico e em surdina que nos remete de imediato para o universo de Arve Henriksen, figura de relevo do catálogo da Rune Grammofon. Ou seja, se “Entre Paredes” tem os pés na musicalidade nacional, a cabeça está numa certa ideia do que é o jazz europeu, e muito em especial aquele congeminado no Norte do Velho Continente. De resto, não é só a Rune que surge como referência: está aqui muita da sonoridade cunhada, na Alemanha, pela ECM, seja na criação de atmosferas como nas colorações instrumentais, e um exemplo está no trabalho da guitarra eléctrica (Mário Delgado).

Quer isso dizer que Moreira pegou num factor de territorialidade musical (a par de Amália Rodrigues e de José Afonso, Carlos Paredes não podia ser mais especificamente português) para o desterritorializar com inteligência e, sobretudo, sensibilidade, tornando o conceito mais partilhável num mundo sem fronteiras. E isto sem cair no perigo da formatação de uma receita, como “Canto de Amor” é um bom exemplo. Podia ter-nos sido entregue como um hino romântico, mas tem um desconcertante balanço marchante, com alusões celebratórias que poderiam incluir as Marchas Populares de Lisboa ou a Marcha do Orgulho. A pérola do álbum vem logo a seguir: uma versão de “Verdes Anos” que não poderíamos prever como possível, carregada de nostalgia, mas tão lânguida e desenvolta quanto tudo o resto que ouvimos.

Neste enquadramento, “Navio Triste” não é simplesmente triste. É mais sereno do que propriamente choroso e funcionaria bem como acompanhamento para uma observação, sem grandes conjecturas ou sentimentos, das partidas e chegadas dos cacilheiros numa esplanada à beira-Tejo. Vem depois outro grande momento da edição, “A Morte Saiu à Rua”: não é de Paredes, mas de José Afonso, e do que deste arranjo emana não é o crime político aludido pela célebre canção de protesto, mas a força simbólica de uma vida que se quer viver por completo, sem opressão nem repressão. O piano de Ricardo J. Dias lembra-nos, por vezes, o de Bernardo Sassetti, surgindo a influência neste contexto como uma inevitabilidade. Surpreendente já é o fecho de “Serenata no Tejo”, em abordagem de dança alegre. Pois aqui está um CD especialmente interessante, a ouvir com toda a atenção.

  • Entre Paredes

    Entre Paredes (JACC Records)

    Sexteto Bernardo Moreira

    Bernardo Moreira (contrabaixo, arranjos, direcção musical); João Moreira (trompete); Tomás Marques (saxofone alto); Mário Delgado (guitarra eléctrica); Ricardo J. Dias (piano); Joel Silva (bateria)