Law Years: The Music of Ornette Coleman

Miguel Zenón: “Law Years: The Music of Ornette Coleman” (Miel Music)

Miel Music

António Branco

Data incerta, local ignoto. Um jovem saxofonista porto-riquenho aborda o seu ídolo, revelando a admiração que nutre por ele, ao que este retorque: «Já pensaste no que aconteceria se tocasses um lá e um mi bemol ao mesmo tempo?» Miguel Zenón (n. 1976) tem uma vívida memória da primeira vez que escutou a música de Ornette Coleman, quando um amigo, muito antes da massificação da internet, pôs a tocar uma cassete com “The Shape of Jazz to Come”. As primeiras notas de “Lonely Woman” mudariam por completo o rumo da sua vida.

O vasto e complexo universo sonoro de Ornette Coleman – que teria completado 91 anos no dia 9 de março deste ano – continua a ser um significativo manancial para diferentes abordagens e possibilidades de interpelação criativa. A forma seminal como compaginou uma imensa liberdade com um sentido de estrutura e coesão, impregnado de linhas melódicas muito particulares, continua a inspirar músicos de várias gerações e filiações estéticas.

Convidado para uma residência no clube Bird’s Eye, em Basileia, Suíça, em maio de 2019, em colaboração com a Jazz Campus e a Orquestra de Jazz da Suíça, Zenón pensou em juntar um conjunto de músicos baseados na Europa com quem mantinha contacto, de uma ou outra forma, mas não necessariamente relacionados entre eles. E assim surgiram convites a quatro hispano falantes também eles tocados pelo poder da música do mestre de Fort Worth: o saxofonista tenor cubano Ariel Bringuez, o contrabaixista argentino (há muito radicado em Portugal) Demian Cabaud e o baterista catalão Jordi Rossy.

Tendo presente a configuração instrumental do quarteto (sem instrumento harmónico, o que potencia a liberdade de movimentos), os quatro acordaram que o único enfoque do concerto final da residência seria a música de Ornette. Zenón organizou uma lista de peças favoritas e propô-la aos demais; a forma como decorreu o ensaio de som antes do concerto deixou claro que a missão poderia levantar voo. O resultado é um saudável misto de surpresa e confirmação.

Apesar de nunca antes desse momento terem tido ensejo de tocar juntos, desde logo ressalta evidente a química que se gerou no seio do quarteto e que se traduz na qualidade do que nos é dado a escutar em “The Law Years: The Music of Ornette Coleman”. Os quatro souberam colher a inspiração e canalizar a energia do momento como mote para explorações, fazendo uso das suas reconhecidas credenciais enquanto improvisadores. O que se revela mais positivo é a forma inteligente como se esquivam à omnipresente armadilha da emulação, sabendo revisitar um mundo idiossincrático (embora não deixe de se reconhecer que existem momentos em que a aproximação é evidente).

Ao sermos confrontados com o vigor com que atacam, sobretudo, o material mais intenso, a comparação com um outro quarteto histórico (o formado por Ornette, Dewey Redman, Charlie Haden e Billy Higgins ou Ed Blackwell) não se faz esperar. O que acontece logo na peça de abertura, “The Tribes of New York”, com a urgência que emana: saxofones em interação próxima suportados por uma coesa secção rítmica (o estilo de Rossy, baseado nos címbalos, aproxima-o mais de Higgins do que de Blackwell). Avulta o excelente solo de Cabaud, o primeiro de um conjunto de intervenções que mostram o contrabaixista em estado de graça. “Free” é uma dança garrida entre alto e tenor (Bringuez tem um som que a espaços lembra o lado mais latino de Sonny Rollins), de imparável dinamismo.

O contrabaixista introduz brevemente o lendário “Law Years” e mais tarde regressa com novo apontamento de pendor “bluesy” e todo aquele sentido melódico que lhe reconhecemos. Zenón retoma o motivo central, após o que Bringuez e a secção rítmica acabam por transportar a peça para outra dimensão. A intensa vibração de “Giggin’”, com o baterista a reagir na hora aos ziguezagues dos saxofonistas, e os altos níveis sinergéticos logrados na sempre luminosa “Dee Dee” (do álbum “At the “Golden Circle” Stockholm”, de 1965, em trio), são outros dos momentos altos da jornada.

A leitura de “Broken Shadows” (a peça de abertura do algo subvalorizado “Crisis”, álbum de 1972) exacerba um lirismo à flor da pele, que Cabaud sublinha através da utilização que faz do arco. As diferenças discursivas e de articulação entre Ornette e Zenón não só não impedem, como potenciam, que “Law Years” seja, mais do que uma notável homenagem ao legado do primeiro, um ótimo testemunho da relevância do segundo como força que se agiganta perante as referências.

  • Law Years: The Music of Ornette Coleman

    Law Years: The Music of Ornette Coleman (Miel Music)

    Miguel Zenón

    Miguel Zenón (saxofone alto); Ariel Bringuez (saxofone tenor); Demian Cabaud (contrabaixo); Jordi Rossy (bateria)