Susana Santos Silva / Torbjorn Zetterberg: “Tomorrow” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

«The duet / A re-meeting / After / Years of knowing / One / Another», lemos em verso nas “liner notes” de John Corbett para este novo “Tomorrow” de Susana Santos Silva e Torbjorn Zetterberg. O poema tem um contexto: antes deste álbum a dupla gravou numa cabana isolada em plena floresta sueca, rodeada de neve, um disco que foi de descoberta musical e pessoal do “outro”, o outro que há em cada duo. Um disco necessariamente tentativo e de desvelamento. Este outro trabalha sobre o conhecido e aprofunda, procura o novo no que já existe em comum e explora essa vertente com uma profunda humanidade. Numa pespectiva trans-humanista que o próprio Corbett percepcionou, e daí as suas alusões a árvores.

Este CD tão humano tem árvores plantadas, uma forma de entender a permanência no que é impermanente, efémero e mutante, algo que diz também respeito à prática da improvisação – a escolhida nesta colecção de peças. O carácter de mistério, de encenação sonora do que é insondável, representado pelos muitos espaços de silêncio, é algo que vamos encontrando ao longo das peças. A música parece procurar um lugar de suspensão, avança mas logo pára para um pouco mais adiante recomeçar, com o tempo sempre a fluir por baixo, por cima, em toda a volta. Quer conhecer mais do que já conhece, para que outras perspectivas se proporcionem, e isso faz com que esta retoma colaborativa entre Santos Silva e Zetterberg seja, passados oito anos do “quase amanhã” de 2013, um “amanhã” pleno de significado. Há ainda um porvir nesta musicalidade exploratória, mas não podia ser mais presente. O que será é o que já é, mas deixando-nos adivinhar o que falta ser, sub-repticiamente implícito. Poucas vezes temos a oportunidade de ouvir algo que sublinhe tanto o que ainda não está lá, dramatizando esse não-estar como se estivesse. A música como teatro do futuro.