Hernâni Faustino: “Twelve Bass Tunes” (Phonogram Unit)

Rui Eduardo Paes

É compreensível a tendência de alguns instrumentistas de secção rítmica para editarem discos a solo: regra geral condenados ao acompanhamento e à sustentação do trabalho feito com instrumentos melódicos ou harmónicos, contrabaixistas e bateristas não resistem a mostrar que podem fazer mais do que isso e que têm as suas próprias ideias. Em muitos casos, está muito bem que assim seja, mas noutros fica bastante em evidência um problema que deveria ser apenas uma qualidade, sabendo todos nós que a improvisação musical é, por natureza própria, um processo de grupo: para músicos que têm um modo de estar e uma prática colectivos, beneficiando o seu jogo pessoal de tocarem em conjunto com outros, o solo absoluto surge inevitavelmente como algo de forçado. É esse o caso de Hernâni Faustino com o seu novo “Twelve Bass Tunes”.

Ainda que não seja um dos contrabaixistas mais técnicos da cena nacional, devido à sua formação como autodidacta no instrumento e no jazz criativo (veio do baixo eléctrico e do rock, tendo integrado na década de 1980 os K4 Quadrado Azul), Faustino é um dos mais galvanizantes, devido à sua expressividade, à sua fisicalidade e ao modo como cola as várias vozes de um agrupamento, serve de eixo às estruturas e dá energia à música, contagiando todos os intervenientes. Nesse âmbito, poucos têm as suas virtudes. A sós, neste disco, não encontramos esse que é o melhor lado de Hernâni Faustino: as peças não ganham gás e não levantam voo, resultando em pouco mais do que exercícios. Estes são bastante interessantes, sem dúvida, mas em termos performativos surgem tolhidos e sem convicção. Habitualmente muito afirmativo em contexto colectivista, o membro do Red Trio quis afirmar uma condição solista com esta edição e falhou no propósito por ser, muito simplesmente, um músico de banda. Não há mal algum em ser um músico de banda, antes pelo contrário, mas é isso que faz com que este álbum seja um equívoco no excepcional percurso do seu autor.