Hair of the Dog

Gabriel Ferrandini: “Hair of the Dog” (Canto)

Canto

Rui Eduardo Paes

Nascida com o jazz e ado/aptada pelo rock, a bateria não é habitualmente um instrumento de pesquisa e extrapolação de possibilidades físicas, mas a esse nível por aí vêm seguindo em Portugal figuras como João Pais Filipe, Gustavo Costa e Pedro Melo Alves. Se Gabriel Ferrandini vinha tendo fama de tocar a bateria de outra maneira nos vários contextos em que o encontramos (Red Trio, Rodrigo Amado Motion Trio, PeterGabriel, etc.), mal sabiam os que o viam em concerto que, nos bastidores, o músico da linha de Cascais tem estado a desenvolver um trabalho exploratório a sós que é outra coisa ainda da outra coisa que nos mostrava: uma música percussiva que equaciona o acústico com o (hiper-)amplificado, tocada com pedais de volume para gestão de “feedbacks”, subgraves e baixas frequências. Uma música que é toda ela construída por dinâmicas, em altíssimo contraste com as performances sempre no vermelho que já foram as suas.

Depois de “Volúpias” e do enraizamento deste projecto na tradição do jazz, que em 2019 representou uma primeira mudança de fundo no trajecto de Ferrandini, eis, pois, que chega outra ainda mais radical e, surpreendentemente (ou talvez não), sem qualquer tipo de relação com essa inflexão de caminho – as referências do novo “Hair of the Dog” estarão mais nos estudos laboratoriais com peles e pratos de um Fritz Hauser do que em alguma “drum clinic” tornada banda de Max Roach. De resto, os “samples” que vão sendo disparados ao longo do álbum, provenientes da música sacra de Carlo Gesualdo, como que atestam – se preciso fosse – que não foi apenas nos processos, nas metodologias, no léxico e na aplicação da energia que houve transformações decisivas no baterista. Houve igualmente um alargamento de panorâmicas para além das delimitações música improvisada/jazz que o conduziam, com este disco a reflectir, inclusive, o que tem sido feito na música erudita para percussão desde Xenakis.

É verdade que nestes anos mais recentes já se verificavam algumas diferenças no “jogo” baterístico de Gabriel Ferrandini em contexto de improvisação, umas denotando uma maior “jazzificação”, ou seja, uma colocação mais evidente na herança da história da bateria jazz, e outras que faziam adivinhar uma investigação sonora profunda. Está aqui a confirmação, só faltando perceber para onde irá Ferrandini depois de algo assim e de que modo estas portas que se abriram irão marcar o seu (e o dos que com ele estão nos grupos que integra) futuro no terreno da improvisação e do jazz criativo. Se tal é imprevisível, de uma coisa podemos ter a certeza desde já: será particularmente interessante seguir essa caminhada.

  • Hair of the Dog

    Hair of the Dog (Canto)

    Gabriel Ferrandini

    Gabriel Ferrandini (bateria, percussão, amplificadores); Miguel Abras, Pedro Tavares (processamentos, produção)