Dança do Pólen

Ricardo Pinheiro: “Dança do Pólen” (Inner Circle Music/AsUR)

Inner Circle Music/AsUR

António Branco

Um ano depois de “Caruma”, o guitarrista, compositor e pedagogo Ricardo Pinheiro (n. 1977) dá com o novo álbum “Dança do Pólen” o passo derradeiro no sentido da redução à essência. Facto, aliás, que já se divisava ao passar em revista o seu itinerário discográfico: em quinteto (com Chris Cheek, David Liebman e Mário Laginha, “Open Letter” (2010) e “Is Seeing Believing?” (2016); em quarteto (com John Gunther, Massimo Cavalli e Bruno Pedroso), “New West Quartet” (2019) e “Lab” (2020), com o baixista Miguel Amado; em trio (com Eric Ineke e Cavalli) em “Triplicity” (2018) e “Turn Out the Stars: The Music of Bill Evans” (2021); e em duo (com os cantores Theo Bleckmann e Mônica Salmaso), em “Caruma” (2020).

Este é o seu primeiro álbum a solo, fruto da necessidade de assumir para consigo mesmo o compromisso de fazer música no formato solitário, sem a contribuição de outros músicos. «Achei que era a altura ideal para o fazer. Sinto-me mais maduro conceptualmente, mais preparado musicalmente e mais estimulado criativamente», começa por dizer o guitarrista à jazz.pt. O recolhimento motivado pela situação pandémica também contribuiu para o processo criativo, ajudando «a estimular o pensamento musical e o desenvolvimento de inúmeros conceitos relacionados com a composição, os arranjos, a “performance” e a gravação a solo.»

Co-editado pela nova iorquina Inner Circle Music (liderada pelo saxofonista Greg Osby) e pela independente portuguesa AsUR – “Dança do Pólen” é um disco no qual Pinheiro explora cruzamentos entre os universos do jazz, da música portuguesa e lusófona e da música improvisada. Tal como já acontecia com o seu antecessor, o novo registo bebe avidamente nas paisagens naturais da Serra de Sintra e na convivência diária com este belo (e sempre enigmático) entorno: «A minha busca pelo essencial não se cinge apenas aos aspetos musicais. Para mim é fundamental atingir um equilíbrio que se traduz num estado de paz interior, e que está inexoravelmente relacionado com a minha relação com o mundo, e com todos aqueles que me rodeiam.»

Músico de amplos recursos, Ricardo Pinheiro aproveitou o contexto para compor e executar, sem pressas ou imposições, ideias, melodias e harmonias diretas, sem foguetórios estéreis, apostando na construção de paisagens sonoras intimistas, constituídas apenas por uma guitarra ou por várias. Resulta uma coleção de dez peças que, amiúde, adquirem uma dimensão cinematográfica, como se de banda sonora para filmes virtuais se tratasse. Delas ressalta o domínio do formato “canção”, que comanda o seu processo criativo, tendo como ponto de partida a melodia, algo que lhe chega através de um conjunto de referências que vão de J. S. Bach aos Beatles («o que é facto é que os meus heróis na música são exímios criadores e intérpretes de melodias», confessa).

Destaque para a serenidade de “Ad Perpetuam” e “Little Piece”, o perfume clássico de “Clarity”, a dimensão encantatória de “Closure”, a portugalidade que emana do tema-título, os tons apaziguadores de “September”. Particularmente interessante é, contudo, o outro lado da moeda, vertido nas duas improvisações livres, de contornos mais abstratos e exploratórios – “O Mostrengo” (inspirada no poema de Pessoa e que Pinheiro diz ver em ação nas praias de Sintra em dias invernosos, numa metáfora para a «força da natureza e a sua implacabilidade») e “Uncertain Times” – que, mostrando o lado visceral e provocatório da sua música, contrastam claramente com a maior formalidade e estrutura das canções.

Disco elegante e maduro na diversidade de atmosferas que apresenta, “Dança do Pólen” constitui um marco significativo no percurso de Ricardo Pinheiro e reitera, se necessário fosse, o seu lugar no escol do jazz nacional.

  • Dança do Pólen

    Dança do Pólen (Inner Circle Music/AsUR)

    Ricardo Pinheiro

    Ricardo Pinheiro (guitarra, efeitos, loops)