Facets

Hafez Modirzadeh: “Facets” (Pi Recordings)

Pi Recordings

António Branco

Desde os já longínquos anos 1980 que o saxofonista e compositor norte-americano (de ascendência iraniana pelo lado paterno e irlandesa/asquenaze pelo materno) Hafez Modirzadeh (n. 1962) aprofunda um conceito particular da arte de trabalhar os sons. Verdadeiro inovador, tantas vezes apodado de cerebral (ideia que contraria, afirmando, em entrevista, que «é preciso ter mais coração do que cabeça, com a intenção de criar algo belo»), Modirzadeh tem-se dedicado, no seu laboratório criativo, a escrutinar as fundações da música ocidental.

A sua especial fixação têm sido as restrições impostas pelas afinações instrumentais convencionais, percebendo-as como castradoras das possibilidades disponíveis para improvisadores e compositores, especialmente quando contrastadas com as tradições musicais de outras geografias. Não espanta, pois, que alicerce a sua abordagem interdisciplinar, a que chamou “cromodalidade”, nas abordagens disruptivas de figuras tão distintas como J. S. Bach, Erik Satie e Thelonious Monk, mas também em elementos derivados dos ricos universos musicais do próximo e médio orientes.

Entre os seus empreendimentos mais notáveis estão a “Radif Suite” (Pi Recordings, 2010), em parceria com o trompetista Amir El-Saffar, na qual se forjaram interseções com a tradição maqam iraquiana e os recursos musicais persas, e “Post-Chromodal Out!” (Pi Recordings, 2012), ao lado do pianista Vijay Iyer, cujas faculdades foram direcionadas para explorar as possibilidades de um piano afinado de modo inusitado, em busca de harmonias e tonalidades alternativas.

Interessado em saber como outros músicos são capazes de interiorizar o conceito que desenvolveu, tornando-o também seu, no seu mais recente álbum, “Facets”, novamente na editora nova-iorquina, faz-se acompanhar por três outros pianistas da linha da frente, cultores, por direito próprio, de abordagens idiossincráticas às oitenta e oito teclas – Kris Davis, Tyshawn Sorey (por muitos conhecido sobretudo como excelso baterista) e Craig Taborn. Nele inclui um conjunto de vinhetas (na sua maioria com duração inferior a quatro minutos), sob a forma de duetos saxofone-piano ou de solos de piano. Não deixa de ser sintomático que o saxofonista apenas surja em onze das dezoito peças, cedendo o centro dos acontecimentos aos músicos que convidou para experimentar instrumentos reconfigurados na sua afinação.

Do ponto de vista da abordagem, o que mais avulta são precisamente as explorações que os pianistas fazem da afinação do piano, gerando sons que interagem de forma inesperada, a espaços deveras intrigante, com o maior lirismo veiculado pelo saxofone. Modirzadeh desafia os três pianistas e o ouvinte a confrontar as suas expetativas de como um piano “deve soar”, iniciando-se uma jornada de resultados imprevisíveis. O saxofonista deu instruções mínimas aos pianistas, permitindo que cada um moldasse a música de acordo com a forma como a concebessem nas suas cabeças. O resultado na maior parte das peças entrega ao ouvinte uma sensação de serenidade inquieta, de calma superficial, mas efervescente em profundidade. A riqueza vocabular do saxofonista, exemplarmente captada (tudo se escuta com minúcia, até a respiração e os estalidos das chaves do instrumento) e a forma como se aproxima e afasta de terrenos jazzísticos, gera uma sensação de estranheza, ao mesmo tempo muito estimulante (recordei, a propósito, o que me confidenciou um aluno quando há uns bons anos escutou pela primeira vez as “notas erradas” de Monk.)

A aventura não podia começar melhor do que com o pianismo abstrato de Craig Taborn, que, a solo, desenvolve uma narrativa. “Dawn Facet”, “Facet 29 Night” e “Facet 39 Mato Paha” convocam o lado mais sombrio de Tyshawn Sorey, que se articula de modo admirável com o melodismo esdrúxulo de Modirzadeh. Kris Davis surge em peças como “Facet 27 Light” (aqui em espiritual associação ao tenor fumarento) a explorar texturas mais serenas do que as que mais habitualmente lhe reconhecemos (e que emergem noutros momentos, como “Facet 32 Black Pearl”). Em “Facet 28 Nora” a pianista de Brooklyn explora, sobretudo, os registos médios e graves, com Modirzadeh a empregar alguns ecos persas no discurso (o que também acontece na notável “Facet 33 Tides”). “Facet 31 Wake” mostra Davis a entregar-se, em formato solitário, a uma longa deambulação que parece seccionada pelas súbitas mudanças de direção.

Modirzadeh e Taborn sondam os esconsos recantos da arquitetura “monkiana” nas leituras de “Ask Me Now” e “Pannonica”, que, de alguma forma, enformam também as angulosidades da construção de “Facet 34 Defracted”, que Kris Davis conclui com um motivo com a mão direita em contraponto com a pulsação imprimida pela mão esquerda. “Facet Sorey” mostra o pianista a justapor a fluência dos registos mais agudos com a robustez dos mais graves, alternando, numa fração de segundo, entre o explosivo e o meditativo.

Evocando afinidades filosóficas entre Nietzsche e Pessoa apetece parafraseá-los de uma penada: este é um álbum que reclama audições ruminadas e que nas primeiras se estranha e depois se entranha.

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    Facets (Pi Recordings)

    Hafez Modirzadeh

    Hafez Modirzadeh (saxofone tenor); Kris Davis, Tyshawn Sorey, Craig Taborn (piano)