Let the Free Be Men

Rodrigo Amado This is Our Language Quartet: “Let the Free Be Men” (Trost)

Trost

Rui Eduardo Paes

Se a associação de Rodrigo Amado com Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano vem resultando em alguma da melhor “fire music” do momento, honrando o tipo de entrega e vernacularidade que o disco com o mesmo nome, de Archie Shepp, deu em herança a uma prática que leva os parâmetros do free jazz para novos desenlaces, muito relevante é que apenas nos quatro últimos minutos da faixa-título de “Let the Free Be Men” o dito fogo desate em labaredas. Pois sim, há lumes brandos que também honram esta ideia incendiária da música que se deseja livre, e o que este novo disco vem repor é a vertente política que está na génese desta corrente do jazz. Andava algo desaparecida, mas faz todo o sentido na presente conjuntura de um vírus que é inerentemente fascista. O modo como as democracias ocidentais estão a lidar com o mesmo reavivou agendas autoritárias que, se eram tendenciais na altura em que este CD foi gravado (2017, em Copenhaga), acabou mesmo por abrir a porta às forças que continuam a querer que os humanos não sejam livres e alguns que não sejam sequer considerados humanos. Estranho seria que a música, e o jazz em particular, não reagisse a este cenário. No caso, antecipou-o, como bastas vezes se verifica no campo das artes, pelo que a sua audição neste mês de Junho de 2021 não pode deixar de ser enformada pelo difícil período em que vivemos.

Os primeiros sete minutos de “Let the Free Be Men” parecem molengões, deslaçados, arrastando-se pesarosamente numa angústia e numa tristeza que congeminam em si toda a história lamentativa que vem desde os blues rurais. Mas algo assim tão sentido, tão visceral, só podia explodir em raiva e (porque não?) alegria, alegria de existir, de estar ainda vivo, de perceber que os velhos princípios são ainda válidos quando os contextos voltam a ser os mesmos, se é que alguma vez realmente desapareceram. O jogo entre o sax tenor de Amado e o soprano de McPhee torna-se, neste enquadramento, uma verdadeira delícia, o primeiro puxando para cima, o segundo para baixo, em contraponto permanente, como se um dissesse que é esta finalmente a hora e o outro lembrando que foi sempre hora, apesar de andarmos alheados. As métricas seguidas pelos dois saxofones são totalmente distintas, mas nesse paradoxo complementam-se. A “fire music” professada pelo This is Our Language Quartet não é uma actualização da chamada “estética do grito”: a sua mecânica de fluidos feita música tem nuances, subtilezas, particularidades e toda uma complexidade dramática, tão evidente na expressão quanto ao nível estrutural.

“Never Surrender”, a faixa que encerra o álbum, é um bom exemplo desta fluidez pirómana. É um tema ascensional: começa com quase nada, um rumor nas peles da bateria de Chris Corsano, um delicado dedilhar de contrabaixo por parte de Kent Kessler,um sopro contido de tenor. A densidade e a intensidade da narrativa vão aumentando gradualmente, poucos motivos introduzidos pelo trompete de bolso de McPhee quase imperceptivelmente tornando-se argumentativos. Quase sem repararmos, instala-se um ambiente de contenda, de confrontação. Qual foi o exacto instante em que aconteceu essa mudança? Quando o saxofone de Amado pega na deixa de McPhee e a leva adiante com a secção rítmica? Não: trata-se apenas de um “transporte”, uns planos levam a outros e crescem: o que vem antes define o que ocorre depois. Ora aqui está uma das edições mais importantes do ano em curso e que poderá muito bem vir a ser uma incontornável referência nos que aí vêm…

  • Let the Free Be Men

    Let the Free Be Men (Trost)

    Rodrigo Amado This is Our Language Quartet

    Rodrigo Amado (saxofone tenor); Joe McPhee (trompete de bolso, saxofone soprano, tubo de PVC); Kent Kessler (contrabaixo); Chris Corsano (bateria)