Cinestesia

Carlo Mascolo / João Madeira / Felice Furioso: “Cinestesia” (FMR)

FMR

Rui Eduardo Paes

O mundo da improvisação e do jazz criativo é feito de encontros e cruzamentos. No que aos primeiros respeita, este disco é o resultado dos vários que os italianos Carlo Mascolo (trombone) e Felice Furioso (bateria) foram tendo com o contrabaixista português João Madeira em várias edições do MIA - que este mesmo mês se realizará na Atouguia da Baleia, concelho de Peniche, com nova participação dos mesmos -, encontros esses que se foram repetindo por outros concertos e “jams” no nosso país. Mascolo vem expressamente de Itália, Furioso reside cá desde que a pandemia o apanhou em Lisboa no ano passado. Em termos de cruzamentos basta verificarmos que a temática de “Cinestesia” coincide com aquela que o jovem baterista tem vindo a explorar, com Maria do Mar, no ciclo DeScomposição Transitória, que também em Junho terá a sua quarta edição na SMUP, Parede: a interrelacionação da música, a arte do tempo por excelência, com a imagem em movimento.

A busca da sinestesia, especificada logo no título deste novo álbum no cinema e em peças designadas como “Motionscape”, “Watching the Soundscape” ou “Blind Sense”, resulta numa perspectiva própria, improvisada, daquilo a que se vai chamando de “música imagética”. Música como imagem sonora, não necessitando das visuais para ser o que pretende, cinema para os ouvidos, algo que nem sequer podiam sonhar Schoenberg e Kandinsky quando conversaram em carta sobre o fenómeno perceptivo em que um sentido estimula outro ou outros e que possibilidades tal poderia abrir para as artes, em colaboração de práticas e disciplinas ou com uma a apropriar-se das propriedades de outra.

Músicos especialmente performativos, estes que aqui se reúnem dão muito para ver além de ouvir: Mascolo utiliza extensões do seu trombone com mangueiras e pinos de trânsito, recurso que não só modela a música que toca como se torna apelativa para os olhos; Madeira tem um relacionamento físico com o contrabaixo que sublinha os próprios sons que dele tira; Furioso articula de tal modo os trabalhos texturais e rítmicos que é mesmo preciso observá-lo para termos a certeza de que determinada passagem foi obra dele e não de um sintetizador. Essa é uma vertente que não transparece imediatamente num registo áudio, mas podemos imaginá-la, e ainda mais se já vimos estes instrumentistas ao vivo.

Na capa reproduz-se uma pintura paisagística de Miguel Mira (artista plástico para além de músico improvisador) que é toda ela gesto, no sentido musical do termo. Não podia ser mais claro o propósito de “Cinestesia”, enquanto “deScomposição transitória”. Vale bem a pena pararmos um pouco e darmos toda a atenção a esta festa sensorial.

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    Cinestesia (FMR)

    Carlo Mascolo / João Madeira / Felice Furioso

    Carlo Mascolo (trombone, extensões); João Madeira (contrabaixo); Felice Furioso (bateria, percussão)