Oceano-Mar

OCENPSIEA: “Oceano-Mar” (edição de autor)

Edição de autor

Rui Eduardo Paes

São de Braga e “Oceano-Mar” é já o seu terceiro álbum. O nome do grupo (pronunciado de diferentes maneiras por radialistas locais na abertura de “Isto é Água”) é o acrónimo de Oh Chefe Eu Não Pedi Sumol Isto é Água, o que introduz desde logo o nível de boa disposição que ouvimos em todas as peças. Trata-se de um quarteto despretenciosamente apresentado com apenas os primeiros nomes dos músicos, com dois teclistas, Tomás e Francisco, um baixista / contrabaixista, Gonçalo (que sabemos ser filho do investigador de jazz Pedro Cravinho, que já colaborou com a jazz.pt) e um baterista, João. Mas não são os únicos a aparecer ao longo das faixas: os bem conhecidos, da cena portuense, José Pedro Coelho (saxofone tenor) e Gileno Santana (trompete) participam, bem como Henrique Ramos (vibrafone), Simão Duque (trompete), Luís Araújo e Diogo Abreu (guitarras), Mafalda BS, PZ e David Bruno (vozes).

A música vem em linha com as novas tendências (ainda que com sabor “retro”) que nos Estados Unidos e na Inglaterra surgem com selo “jazz”, combinando os formatos históricos deste género musical com o hip-hop, as músicas electrónicas de dança, o funk, a soul, o R&B, o rock e reminiscências de estilos como o acid jazz ou o house. De resto, os corais e os arranjos sintéticos de cordas em envolvimento “groovy” que pelo disco ouvimos são claros quanto à familiaridade desta música com as de nomes como Kamasi Washington e Thundercat, se bem que a banda confesse a sua predilecção por Marc Miller, a quem dedica a peça “Catch-22”.

A grande diferença relativamente a tais práticas está na brevidade dos temas e esse é o principal problema: os “riffs” não se instalam, pelo que nenhum “mood” vem atrás com a repetição dos padrões rítmicos. As faixas sucedem-se como “snapshots”, ideias que, apesar de boas, não têm desenvolvimento e não levam a lado algum, com tal opção desaparecendo de cena qualquer possibilidade de improvisação. Contradiz-se, assim, o próprio factor que é comum às várias tendências musicais sincretizadas neste projecto, a predisposição improvisacional, num equívoco que permanece até ao fim e que fica muito evidente na encapsulação das estruturas, no seu fechamento, naquilo que parece uma intencional recusa de que a música levante voo. A regra seguida dos dois, três minutos de duração pode ter sido uma razoável estratégia para o grupo passar na rádio (irá acontecer?), mas revela-se bastante problemática. Ficamos, canção a canção, à espera de mais e esse mais nunca chega.

Os OCENPSIEA têm tudo o que é preciso para serem um projecto de referência na abordagem que escolheram, mas esta não é, decididamente, a melhor via. Fico curioso em saber se, numa próxima edição, nos oferecem aquilo que aqui já se percebe que têm para dar.

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    Oceano-Mar (Edição de autor)

    OCENPSIEA

    Tomás, Francisco (teclados, sintetizadores); Gonçalo (baixo eléctrico, contrabaixo); João (bateria, bateria electrónica) + José Pedro Coelho (saxofone tenor); Gileno Santana, Simão Duque (trompete); Henrique Ramos (vibrafone); Luís Araújo, Diogo Abreu (guitarra eléctrica); Mafalda BS, PZ, David Bruno (voz)