On the Shortness of Life

André Matos: “On the Shortness of Life” (Edição de autor)

Edição de autor

António Branco

Poucas semanas após ter dado vida ao excelente “Casa” (Robalo) – o tomo derradeiro de uma tetralogia a solo –, o guitarrista André Matos (n. 1981) regressa com um projeto intitulado a partir das palavras do filósofo estoico romano Séneca, que teorizou acerca da brevidade da vida. São quatro os volumes, porém reunidos e publicados de uma assentada, como se não houvesse amanhã. Que rebate foi este? «Falei ao telefone com João Lencastre antes de voltar para Nova Iorque no final de março e perguntei-lhe se se conseguia gravar a si próprio, pedindo-lhe para me enviar alguns excertos de bateria a solo. Tudo numa perspetiva de experimentar qualquer coisa sem saber o quê», começa por dizer o guitarrista à jazz.pt.

Ao longo do mês de abril de 2021, Matos pediu a outros músicos amigos – de ambos os lados do Atlântico – para lhe enviarem uma ou duas faixas improvisadas nos seus instrumentos. Apenas em alguns casos ocorreu o inverso, com Matos a enviar a base e a aguardar os complementos. Juntou a sua guitarra e alguns efeitos naquilo a que chamou «duos remotos». «Só duas semanas mais tarde é que tudo começou a tomar forma, a ficar mais claro, e percebi que tinha em mãos muito trabalho pela frente. Numa primeira fase pensei em ter uma faixa com cada músico e ser tudo mais curto, mas não dava para escolher de tantas faixas. Ou até fazer vários álbuns, mas era confuso para mim estender o projeto. A decisão dos quatros volumes foi uma forma de organizar a música para o ouvinte e também talvez acabe por ter esse carácter simbólico», acrescenta.

Não há música escrita. O resultado é um conjunto de vinhetas maioritariamente de duração inferior a quatro minutos, caleidoscópio de diferentes atmosferas e abordagens, com a guitarra a funcionar como a resina que confere coerência ao abrangente espetro sónico. Os volumes estão organizados com capas diferentes e as peças que os constituem permitem que cada ouvinte faça como mais lhe aprouver: escute o álbum seguido, volume a volume, ou traçando o seu próprio itinerário de audição (são possíveis 2,95E38 permutações distintas!) – tal como o labiríntico “Livro do Desassossego”, e os múltiplos caminhos possíveis para a sua descoberta...

O processo teve os seus escolhos, ao tentar reproduzir em estúdio e à distância aquilo que os músicos fazem, em condições normais, juntos. Depois de ouvir cada contribuição, Matos trabalhou sobre elas, improvisando, por vezes acrescentando mais do que uma camada, e editando, quando necessário. Em tempo de pandemia, este foi o “modus operandi” possível para si (e para tantos) de tocar com outros músicos, impossibilitado de o fazer olhos nos olhos. «O desafio foi, no processo de mistura, que todos os temas se integrassem uns nos outros. Nessa medida, acabei por decidir fazer os volumes e baralhar os instrumentos, em vez de organizar por instrumento/músico. Teve para mim um carácter viciante, quase como completar um “puzzle”. Ver lentamente as peças a encaixarem umas nas outras. É, ao mesmo tempo, uma obra do acaso.»

O álbum (tomando-o como um todo, como pessoalmente me faz mais sentido) abre com “Sunrise” e fecha com “Sunset”, duas peças contemplativas que refletem uma ideia de ciclo, que permanentemente se renova. O que não terá sido alheio ao facto de Matos ter contraído Covid-19: «Chega um momento em que me quero já alhear dessa realidade e partir para um patamar de renovação, de retomar a criatividade, por isso, se virmos dessa forma, sim, acaba por estar presente a nossa condição, mas talvez não necessariamente através da experiência pessoal», diz.

“Vi Estrelas” e “Invested in Something” contam com a contribuição decisiva de Gonçalo Marques, avultando nesta última o contraste entre a parte mais textural do trompete e os apontamentos tonais da guitarra. Em “Remembrance” é a gravidade do clarinete baixo de Aaron Krusiki que interage bem com a guitarra e “On the Shortness of Life” – paradoxalmente a peça mais longa do álbum – é um dos magníficos diálogos com a bateria, prenhe de detalhes, de João Lencastre. “Colares” tem um forte travo de blues americano (ingrediente que, cabe lembrar, faz parte da história do guitarrista), por causa do “slide” e da afinação da guitarra, o que também acontece na sequela, “Vindima”, baseada em “Nobody’s Fault But Mine” do “bluesman” Blind Willie Johnson (nestes casos foi Matos a gravar primeiro a base.)

“Sozinho em Serpa” tem no centro o contrabaixo eloquente de Demian Cabaud e no final uma daquelas modas que se escutam, de coração apertado, numa taberna, ao final da tarde, depois de uma dura jornada de trabalho (em rigor, o contrabaixista gravou esse excerto num restaurante da cidade baixo alentejana e encostou o telefone ao microfone enquanto gravava o seu instrumento.). O canto sem palavras – de características únicas – de Sara Serpa escuta-se em três peças: “Medo das Alturas”, na bem-humorada “Singing with Frogs” e em “Andorinha”. As eletrónicas de Dov Manski sublinham os tons mais abstratos de “Do Além” (que abre o volume II) e “Tip Toeing”. O perfume do saxofone alto de José Soares abre-se ao mundo em “Ali no Alto”, “Lava” e “Healer Instincts” (curiosamente, ou talvez não, apresentadas em sequência, como se de uma microsuíte se tratasse).

Menções especiais ainda para o encantatório “Swimming with Dolphins” (com os sintetizadores de Dov Manski em destaque, numa peça em que Matos optou por quase não intervir), para o travo camerístico, lento e contido (um filão que o guitarrista tem vindo a explorar), de “Vai para o Porto” (mais uma vez com “slide” e “loops” e um Cabaud soberbo) e para o “chiaroscuro” de “Ordem Suprema”. Com notável utilização do arco, o contrabaixista André Carvalho (compatriota também a residir em Nova Iorque) contribui sobremaneira para a solenidade de “Slow Motion Floating”. O saxofonista Noah Preminger deambula livremente em “Walking Around” e o pianista Leo Genovese empresta a “Quiter Pursuits” o seu pianismo cristalino.

Eis “On the Shortness of Life”, um «projeto louco» a que, na aceção de Erasmo de Roterdão, são devidos todos os encómios.

  • On the Shortness of Life

    On the Shortness of Life (Edição de autor)

    André Matos

    André Matos (guitarra e efeitos); Sara Serpa (voz); Nathan Blehar, Noah Preminger (saxofone tenor); José Soares (saxofone alto); Gonçalo Marques (trompete); Aaron Krusiki (clarinete baixo); Julian Shore, Leo Genovese, Richard Sears (piano); André Carvalho, Demian Cabaud (contrabaixo); João Lencastre (bateria); Dov Manski (sintetizadores)