Half Dead Half Alive (Live in Nickelsdorf)

Joke Lanz / Ute Wassermann: “Half Dead Half Alive (Live in Nickelsdorf)” (Klanggalerie)

Klanggalerie

Rui Eduardo Paes

Quase chegados ao final da primeira metade de 2021, não é sem alguma azeda ironia que verificamos terem 2019 como ano de registo muitos dos álbuns que vão sendo por estes dias editados. É como se essa referência temporal anunciasse o fim da era pré-apocalipse. E quando essa constatação vem enquadrada com um título como este, “Half Dead Half Alive” (sendo que a parte “Half Dead”, apesar de anunciada como “metade”, dura 33 minutos, enquanto a “Half Alive” fica-se pelos 2’36’’ – o que é de um humor tão negro quanto requintado), ficamos com a prévia suspeita de que a música vinda desse “antes” proposta por este CD configura, de algum modo, a existência zombie que tivemos em muitos meses de confinamentos e recolheres obrigatórios. Pois a audição confirma-o: só podemos admitir que estamos mortos e vivos, mortos-vivos, num processo de extrema desconstrução do que nos é mais vital (a voz como escultura comunicante da respiração) como o que é aqui operado por Joke Lanz e Ute Wassermann.

Para quem não os conhece ficam as apresentações. Lanz é um “turntablist” com nome firmado no noise rock mais radical, a exemplo dos Sudden Infant e dos Schimpfluch, e Wassermann uma das mais surpreendentes cantoras da livre-improvisação na actualidade, reconhecida por levar para diante a linhagem de exploradoras vocais da new music, da música contemporânea, das frentes progressivas do jazz e do rock e dos experimentalismos vários que vem de Cathy Berberian, Joan LaBarbara, Meredith Monk, Fatima Miranda, Diamanda Galás, Meira Asher, Dagmar Krause, Nina Hagen, Patty Waters e Lauren Newton. O que quer dizer, sim, que a Voz é o chão e o horizonte do que ouvimos, com Lanz a “picar” frequentemente vinis em que se ouvem fragmentos cantados ou de “spoken word” e instrumentos de sopro em situações de especial visceralidade, com preferência para o trombone.

Quando este procedimento parece indicar que o que se segue será, muito simplesmente, um jogo (des)multiplicativo de vocalismos e tessituras glóticas, todo o cenário é virado ao contrário. Wassermann mimetiza com a garganta sons que não podemos identificar como sendo de fonte humana e utiliza apitos de pássaros e outros objectos produtores de ruído, misturando-se com as citações que Lanz tira dos LPs – algumas tão breves que é impossível o reconhecimento da sua origem. Este último introduz não só materiais abstractos como também “beats” de club music ou distorções guitarrísticas de metal. Sempre ultra-reactivas, as interacções da dupla surgem com um imediatismo nada menos do que espantoso, num vaivém de ideias e desafios mútuos que não teme o anedótico e um doído sarcasmo. Se o gira-disquista suíço tem ao seu alcance todo um banco de dados, os recursos da cantora alemã são inesgotáveis.

Desconstrucionismo se trata, portanto. Da percepção, do “fazer”, da fisicalidade, da expressão, da própria noção de música, da ideia de existência como um grau mínimo em que tudo é passível de ser reinventado. “Half Dead Half Alive” é uma mesa de dissecção Dada, futurista, surrealista, situacionista, Fluxus, e uma delícia. A edição mais do que certa para exorcizar vírus, os biológicos e os mentais que vieram com eles.

  • Half Dead Half Alive (Live in Nickelsdorf)

    Half Dead Half Alive (Live in Nickelsdorf) (Klanggalerie)

    Joke Lanz / Ute Wassermann

    Joke Lanz (gira-discos); Ute Wassermann (voz, apitos de pássaros, objectos ressonantes)