Suicide Underground Orchid

Ikizukuri & Susana Santos Silva: “Suicide Underground Orchid” (Multikulti Project)

Multikulti Project

Rui Eduardo Paes

«Scenes of chaos and harmony», lê-se nas “liner notes” do novo álbum dos Ikizukuri (desta feita com a convidada especial Susana Santos Silva), em jeito de apresentação daquilo que vamos ouvir. Que o caos tem a sua própria ordem já o sabemos e isso é matematicamente verificável. Falar-se em harmonia, uma das condições básicas da ocidentalidade musical, estica o conceito de caos para o domínio estético, e é isso que está precisamente em causa neste “Suicide Undergound Orchid”, em referência à mais suicida das orquídeas, e uma das mais raras, porque nasce debaixo da terra para dela não emergir. O título confirma o que vem dentro: esta é uma música do “underground” e não propriamente das margens da cultura urbana. Não se deixou marginalizar; vive em estado contracultural, subversivo e resistente face à presente homogeneização das linguagens musicais segundo os ditames de gosto que são impostos como regra.

O grupo do alemão Julius Gabriel e dos portugueses Gonçalo Almeida e Gustavo Costa tem como característica base equacionar o legado do free jazz com o do doom/black metal, com uma secção rítmica de baixo e bateria a repetir “riffs” até à exaustão e um saxofone (neste disco o soprano) a sobrevoar esse chão obsessivo-compulsivo. E se o acrescento do trompete de Santos Silva nos podia fazer crer que o factor jazz sairia reforçado, eis que também os seus volteios são contrariados por uma gravidade que puxa inapelavelmente para baixo.

O caos anunciado surge então, aqui, sob a forma de um paradoxo tema a tema reiterado: os sopros sobem, ou tentam subir (por vezes a pique), enquanto a rítmica os mantém condicionados, sempre espessa, densa e pesada. Esta é uma música a duas velocidades, uma música de simultaneidades. O que acontece está dentro dessas duas forças adversas e o que as medeia e junta/combina é, pois, harmonia, se bem que não a clássica. A grande virtude deste CD está na confirmação da ideia de que os paradoxos libertam. O sax e o trompete desconstroem, o baixo e a bateria mantêm o todo uno e indivisível. Alma e corpo procuram libertar-se um do outro, mas para descobrirem nesse processo de desligamento que são o mesmo. A imanência é a condição da transcendência e a transcendência é a condição da imanência, na distância permitida pela materialidade. Platão já não anda por aqui.

  • Suicide Underground Orchid

    Suicide Underground Orchid (Multikulti Project)

    Ikizukuri & Susana Santos Silva

    Julius Gabriel (saxofone soprano); Gonçalo Almeida (baixo eléctrico); Gustavo Costa (bateria) + Susana Santos Silva (trompete)