Sounding Point

Mark Feldman: “Sounding Point” (Intakt)

Intakt

António Branco

Mark Feldman (Chicago, 1955) tem há vários anos lugar cativo no escol dos violinistas mais relevantes do jazz e das músicas criativas da atualidade, sendo conhecido, sobretudo, pelo seu papel de marcante “sideman” (John Zorn, Dave Douglas, Uri Caine, John Abercrombie, Sylvie Courvoisier, Satoko Fujii) e como líder das suas próprias formações, em bem mais de uma centena de aparições numa carreira de quatro décadas.

Em 2020, Feldman contribuiu decisivamente para dois discos relevantes: “Deep Resonance” (Fundacja Słuchaj), com o saxofonista Ivo Perelman e o Arcado String Trio (que se completa com o violoncelista William H Roberts e o contrabaixista Mark Dresser) e o notável “Pedernal” (Relative Pitch), integrando o quinteto da guitarrista de “pedal steel” Susan Alcorn.

Mas é no mais solitário dos formatos que Feldman melhor consegue expressar a enorme riqueza vocabular da sua abordagem e todo o seu virtuosismo consequente. Vinte e seis anos após a estreia a solo, com “Music for Violin Alone”, produzido por Zorn para a Tzadik, Feldman reúne em “Souding Point”, gravado na sua casa de Brooklyn em abril de 2020, seis composições suas, a que junta duas de autoria alheia. A propósito das circunstâncias da gravação, ocorrida já em pleno recolhimento pandémico, disse ao mais recente número do The New York City Jazz Record: «Não preciso de isolamento ou de auscultadores e já sei em qua sala o meu violino soa melhor.»

Combinando elementos das músicas improvisadas e da tradição clássica, Feldman exibe uma particular sensibilidade às texturas e ao tempo, desenvolvendo as suas ideias, mesmo as operacionalizadas de modo mais enérgico, sempre de forma natural, como se se tratasse de uma extensão da sua própria respiração. O músico explora o seu instrumento de forma irreverente e vibrantemente orgânica, acrescentando “overdubs” em três das peças para expandir as suas possibilidades.

Na música de Feldman escutam-se amiúde breves motivos melódicos, que brotam, são nutridos e redefinidos, numa lógica ao mesmo tempo elegante e desafiadora. Tal como acontece na peça-título, com ecos orientais de grande beleza e leves efeitos que sublinham um lado mais emocional da construção sonora. A peça mais curta do álbum, “Rebound”, totalmente improvisada, começa e termina com um gesto simples, os fios de crina de cavalo a afagarem suavemente as cordas, e com passagens etéreas, ataques rápidos e pizzicato percussivo no ínterim.

Quase no outro extremo da duração, na interpeladora leitura de “Peace Warriors”, de Ornette Coleman, o violinista recorre em “overdub” a um segundo (e terceiro?) violino para diálogos de cortar a respiração. Em “As We Are”, original de Sylvie Courvoisier  (retirado de “Free Hoops” (2020), também na Intakt), Feldman reparte-se entre o arco e um inteligentíssimo uso do pizzicato, catalisando toda a energia que emana do violino, em cascatas de notas, sem perder de vista o belo substrato melódico.

Outros dos momentos que mais aguçaram estes ouvidos escutam-se ao longo dos mais de nove minutos de “Viciously”, onde Feldman opera o desmembramento e a reconfiguração de “Tenderly”, “standard” de Walter Gross, de 1946, que tínhamos como virtualmente exaurido. No vertiginoso “Unbound”, o violinista alterna passagens tensas com notas longas e em “Maniac”, de atmosfera inquieta, nada do que é num momento o é no seguinte. A derradeira peça, “New Normal”, reflete sinais de um tempo que não volta para trás.

“Sounding Point” é um ótimo disco que mostra Mark Feldman na plenitude das suas capacidades enquanto instrumentista e improvisador da linha da frente.

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    Sounding Point (Intakt)

    Mark Feldman

    Mark Feldman (violino)