Empa

Miguel Rodrigues: “Empa” (Cena Jovem Jazz.pt)

Cena Jovem Jazz.pt

António Branco

Como resultado de ter vencido em 2019 a primeira “open call” da Cena Jovem Jazz.pt, iniciativa da jazz.pt e do Jazz ao Centro Clube (JACC) que tem como propósito apoiar a criação, a promoção e a divulgação do património musical contemporâneo português, feito por jovens músicos/compositores, Miguel Rodrigues (n. 1994) acaba de ver editado o seu registo de estreia em nome próprio, “Empa”.

Baterista e compositor natural de Viseu, Miguel Rodrigues concluiu em 2014 o curso profissional de instrumentista jazz no Conservatório de Música da Jobra, mas já tinha dado nas vistas no ano anterior, quando integrou a banda vencedora do concurso de escolas da 11.ª Festa do Jazz do São Luiz. Em 2016, arrecadou também, como membro do quarteto do saxofonista Sócrates Bôrras, o 2.º lugar do Prémio Jovens Músicos organizado pela RTP/Antena 2, na categoria de “Jazz Combo”, apenas atrás dos Home do acordeonista João Barradas.

Considerando-se um músico de jazz, embora não um músico que apenas toca jazz, entende que este não é apenas um género e não pode funcionar como um rótulo. «Desde que estudei jazz, nunca mais ouvi música da mesma forma», disse-me em entrevista há quase dois anos e essa perspetiva holística está claramente presente nas suas construções sonoras.

Depois de ter participado no disco do João Fragoso Quinteto (que venceu a primeira edição do certame promovido pelo JACC, ainda em formato curatorial), Rodrigues opta na estreia pelo formato de trio, com José Diogo Martins ao piano e Demian Cabaud no contrabaixo. Os caminhos dos três músicos já anteriormente se haviam cruzado, tendo ficado claro que, no contexto da música do baterista, da parceria poderia emergir algo interessante. Daí à concretização foram dois passos. “Empa” foi registado no Centro de Alto Rendimento Artístico (CARA), projeto inovador da Orquestra Jazz de Matosinhos, e integra também o catálogo “GiraDiscos” da Gira Sol Azul, associação viseense que desenvolve atividades culturais, artísticas e de formação.

O dicionário esclarece que “empa” é o ato ou efeito de empar, que significa suster com estacas ou ligar a estacas, suportando as videiras e outras plantas sarmentosas ou trepadeiras. Miguel explica à jazz.pt a forma como procurou traduzir o conceito em música: «É o facto de a improvisação sustentar a música e vice-versa. Também o facto de a empa ser uma das tarefas das vinhas, que na minha região são predominantes, e o produto final é, como na música improvisada, imprevisível.» Em notas de apresentação do disco, o baterista deixa expresso que a música é também «vida a despontar e que a cada instante se renova, recomeça e repensa», materializando-se ao «mergulhar no risco do jogo com o outro e na intensidade do agora».

Das dez peças que integram “Empa” (acrescem duas versões alternativas), seis são da sua autoria e quatro são olhares sobre obra alheia. A música que por aqui se escuta, não redefinindo a geometria do formato de trio “clássico” piano-contrabaixo-bateria, põe à prova a sua elasticidade, apontando em várias direções estéticas, cruzando referências, tempos e espaços. É certa a ligação à história do género, mas o baterista não tem pejo em interpelá-la de peito aberto: «Acho que, como em todas as áreas, se deve conhecer e assimilar bem a tradição para depois se perceber o que é o contemporâneo. Tento não fazer um corte à tradição, mas sim uma radicalização dela, levando-a até aos limites.» «O que escrevo, normalmente, é um retrato de algo que todos podemos ver de forma diferente, logo cada músico vai interpretar o que está escrito à sua maneira. Isso torna a música autêntica», acrescenta.

O álbum abre com a melodia luminosa de “Universal Piece” – tema original do veterano Ra-Kalam Bob Moses –, que o baterista introduz delicadamente e que vai ganhando corpo com a interação apertada entre os três músicos a colocar alta a fasquia. Mais intenso é “Vem Aí a Mãe”, com a dupla rítmica a alimentar o sentido de urgência, que o vigor pianístico de um competentíssimo Martins sublinha. O swingante “Reboliço”, com Miguel impecável na utilização das escovas, antecede um dos cumes do álbum, “Enrodilhado”, com a sua estrutura intrincada, em que descortino angulosidades “monkianas”.

Contrastante é a apropriação tranquila, embora nada previsível, de “Fatherhood”, tema do guitarrista Tisziji Muñoz (uma sugestão de Cabaud), com a sua bela linha melódica, que o trio burila e expande de modo exemplar (notável a articulação entre a fluidez do piano e a irrequietude da bateria, com um híper-sólido Cabaud de certa forma a servir de fiel). A surpreendente leitura de “Snowfall”, composição de 1941 de Claude Thornhill (originalmente com letra da mulher, Ruth), corporiza outra prestação soberba do trio, que acrescenta pontos a um imenso rol de versões anteriores (de Henry Mancini a John Zorn). “Sincelo” é uma composição de João Fragoso que surge aqui como reconhecimento pela partilha e amizade de anos. O mais camerístico “Entre o Esplendor da Luz Perpétua” é uma ode à despedida e “Empa” traz à tona uma portugalidade latente.

Ultrapassada com distinção a fase da promessa, Miguel Rodrigues demonstra em “Empa” que é uma força criativa em ascensão no jazz nacional, cujos passos futuros importa agora seguir com atenção redobrada.

  • Empa

    Empa (Cena Jovem Jazz.pt)

    Miguel Rodrigues

    José Diogo Martins (piano); Demian Cabaud (contrabaixo); Miguel Rodrigues (bateria)