Soliloque Sonore

Ulrich Mitzlaff: “Soliloque Sonore” (edição de autor)

Edição de autor

Rui Eduardo Paes

Qualquer dicionário ou compêndio de teatro diz-nos que o termo “solilóquio” significa o mesmo que “monólogo”. Está longe de ser verdade: um monólogo é um discurso dirigido para fora, para um ouvinte que está diante de quem fala, enquanto um solilóquio é uma conversa consigo mesmo, um diálogo do “eu” que se estabelece em termos de uma virtualidade intra-corporal. Foi essa particularidade comunicante numa dimensão que parecia estranha à comunicabilidade que tornou o solilóquio num formato literário e dramatúrgico, bem mais interessante do que simplesmente declamar para passivos pares de orelhas.  Um solilóquio no encenado domínio da música improvisada acrescenta ainda outra camada a este dispositivo: numa abordagem musical iminentemente colectiva, de criação sonora com o outro, é a assunção de que o outro da música podemos ser nós mesmos.

Ou devemos ser nós mesmos, porque este “Soliloque Sonore”, o novo álbum de Ulrich Mitzlaff, é a consequência da cruel verificação de uma nova realidade: se não é possível «tocar com outros músicos» em tempos de confinamento, a única possibilidade para que a música continue e aconteça é compor/tocar (ou seja, improvisar) no quadro de uma conversação imaginada, ou dizendo de outro modo, interior a um só indivíduo, embora num plano que se anuncia como inevitavelmente esquizóide. Nas duas peças incluídas, “Discours Imaginaire #1” e “Discours Imaginaire #2”, admite-se o artifício de que se pode reconstruir o colectivo dentro do imaginário individual de um artista e de que este imaginário tem de se (re)configurar como desordem da personalidade e como espaço de construção de personagens outras, heterónimos, “amigos imaginários”.

É um triste (porque solitário) e perigoso (porque admitindo a demência como processo criativo) condicionamento, aquele que assim se define? É, sem dúvida, mas abre também curiosas possibilidades de exploração. Na verdade, as circunstâncias pandémicas que conduziram a desfechos como o presente reforçam um propósito que não é propriamente novidade: no início do século XX já as vanguardas então emergentes estabeleceram como propósito mimetizar a chamada “arte dos loucos” (valorizando-a em comum com a arte das crianças e a arte dos “selvagens”) para desbloquear os mecanismos da criatividade e soltar esta dos imperativos formais que se foram instalando. Como o fez Mitzlaff neste álbum? Com alguma cautela, para evitar o que pudesse suceder de excessivamente dissociativo: o violoncelo é ele próprio, um eu que ocupa por inteiro o lugar em que já o reconhecíamos como violoncelista, mesmo que as sobregravações que são um decisivo factor de produção neste disco nos façam ouvir mais do que um violoncelo - tudo o resto que se distingue (um címbalo chinês, uma voz, uns irrequietos sapatos – e haverá símbolo maior de ausência do que uns sapatos vazios?), ainda que tenha sido o mesmo Ulrich Mitzlaff o responsável por tais emissões sonoras, é imputado a «músicos ausentes», músicos que foram «substituídos» por outros «imaginários».

O interessante é que, numa boa parte de “Discours Imaginaire #1”, Mitzlaff (isto é, o violoncelo) desaparece, só ficando os músicos de substituição, ou seja, só ficando o imaginado, o alucinado. Quando o violoncelo regressa, são os signos da secularidade clássica do instrumento que se impõem, como se o que estivesse em causa fosse uma exorcização da loucura criativa pelos apertados códigos normatizadores da música de câmara. Não sei se terá sido essa a intenção consciente do músico alemão radicado em Portugal, mas a interpretação que faço vai nesse sentido. Já na faixa seguinte, Mitzlaff começa por fazer com que o violoncelo soe como os sapatos, ou melhor, com que o violoncelo seja os sapatos, mudando repentinamente para um “drone” LaMonte Younguiano que funciona como o cenário para uma nuvem de falas que nos vêm dizer que o que está em causa é, efectivamente, teatro, única forma que temos de devolver o delírio, a loucura, à “normalidade”. A esquizofrenia desta música da era Covid-19 é um fingimento, é drama-acção, não vá o diabo tecê-las e ficar também Ulrich Mitzlaff (e nós com ele) a deambular aos gritos pela cidade nas longas madrugadas deste ano e meio de recolher obrigatório, algo que cada vez mais sucede porque… sim… estamos a ficar doidos.

  • Soliloque Sonore

    Soliloque Sonore (Edição de autor)

    Ulrich Mitzlaff

    Ulrich Mitzlaff (violoncelo, címbalo chinês, sapatos, voz)