Tacit Ground

Granular Bastards: “Tacit Ground” (Discordian Records)

Discordian Records

Rui Eduardo Paes

Se há disciplina artística que melhor configura o indizível, essa é a música. A sua natureza não-representacional, em contraste com a pintura, a fotografia ou a escultura, permite-lhe expressar as emoções que não são traduzíveis em palavras. O termo “tacit” (tácito) do título deste disco, “Tacit Ground”, é isso que significa: uma forma de comunicação que parte do entendimento do silêncio do outro, um silêncio que, obviamente, está impregnado de sentido, dizendo mais do que qualquer articulação frásica. É a linguagem do amor, por exemplo.

Sendo a música, tal como a fala, uma linguagem, o que neste álbum da dupla Granular Bastards (Valeria Miracapillo na electrónica por computador e Albert Cirera nos saxofones tenor e soprano, com ou sem preparações, com ou sem técnicas extensivas) está em causa é a procura do que nela, música/linguagem, está para além do que é dado a soar. Esse além é a emoção no seu essencialismo não inerte e em constante mutação, mas uma emoção que se deixa ligar, que se transporta, que é dirigida, que comunica. Deleuze dizia que a arte não comunica coisa alguma: Miracapillo e Cirera dizem, não dizendo, que isso é mentira. E não dizendo, vêm comprovar que a utopia (distopia?) de uma música não emocionalizada, tal como foi defendida pelo reducionismo composto ou improvisado de Radu Malfatti e outros em reacção ao excesso das abordagens musicais expressionistas (de que aqui se partilham, aliás, alguns recursos técnicos e estéticos), resultou num engano.

O ir “além” desta concepção da música é um movimento com retorno: só vai além o que, em simultâneo, recua. Esta é uma música visceral, corpórea, primária, e tanto assim que o seu compromisso é com o som, não com a música convencionalmente definida em milénios de prática e séculos de conservatório. É organização de sons, bem entendido, ou seja, música, mas coloca-se num plano de formulação linguística, não de gestão das heranças históricas da linguagem musical. De resto, pouco há nestes temas que possa ser compreendido como melodia, harmonia ou ritmo, a santíssima trindade da música padronizada.

Física e primeva, ainda que recorrendo a dispositivos cibernéticos ou mecânicos e incorporando repetições maquinais nas tramas, esta é uma música feita de carne e osso, uma música em que corre sangue, uma música indubitavelmente sexual. E esta qualidade vem logo exposta na primeira faixa, “Thinking the Hurt”, na qual o saxofone é manipulado por vibradores clitoridianos. Curioso é verificar como as aplicações tecnológicas em causa (os objectos motorizados que Cirera coloca na campânula do tenor para “naturalizar” as respirações do instrumento, as sínteses granulares de Miracapillo que funcionam a um nível de animalidade ofegante) não sublimam ou virtualizam o corpo e as suas funções (os seus ruídos internos), antes os tornam mais presentes. Este é um álbum declaradamente pós-humanista, senão mesmo trans-humanista, único modo com que, hoje, podemos entender o humano na sua imanência pré-lingual, tácita. Não é preciso dizer nada, está dito já no silêncio subterrâneo que habita esta música.

  • Tacit Ground

    Tacit Ground (Discordian Records)

    Granular Bastards

    Valeria Miracapillo (computador); Albert Cirera (saxofones tenor e soprano)