Casa

André Matos: “Casa” (Robalo Music)

Robalo

António Branco

Dando sequência a uma série de registos a solo iniciada em 2016 com “Múquina” e continuada com “Nome de Guerra” (2017) e “Earth Rescue” (2020), André Matos (n. 1981) acaba de publicar o derradeiro volume desta tetralogia, “Casa”, como sempre na Robalo Music. Um belo álbum que representa o epílogo de um longo processo de descoberta pessoal: «Este disco é o culminar de uma procura de independência, de desbravar tempo e espaço para mim. Estes foram ao limite, porque acabei por ser eu o único responsável por todas as etapas, com exceção da capa e da foto», diz o guitarrista à jazz.pt.

Quando a pandemia de covid-19 irrompeu com estrondo na sua vida, resolveu comprar algum equipamento de gravação, procurando não apenas criar melhores condições para as aulas que ministra através da internet, mas também para produzir música. «Foi começar do zero. Não substituiu tocar para as pessoas, mas manteve-me ocupado», confessa o músico em notas de apresentação do novo álbum. As experiências iniciais resultaram numa série de mais de duas dezenas de vinhetas a que chamou “A Minute in Time”, publicadas na sua página da rede social Instagram.

Reconhecido pelo labor oficinal com que burila melodias e texturas, Matos prossegue a exploração do mais solitário dos formatos, fazendo-se acompanhar apenas pela sua guitarra e por subtis efeitos eletrónicos, um meio de, como diz, «acrescentar tecido emocional». Não há aqui lugar a pirotecnias ou demonstrações inconsequentes de virtuosismo. O músico reconfigura a sua relação com o instrumento e com a composição, num exercício interior que encara como uma confrontação, de forma mais imediata, com as suas limitações e hábitos, o que, de modo paradoxal, é um caminho de liberdade e realização. «Quando toco em grupo, posso camuflar-me até certo ponto. A solo, a aceitação do silêncio apresentou-se como uma oportunidade de autoafirmação. Sinto-me capaz de manusear as emoções, de as moldar e de as contemplar, porque há mais tempo para isso.»

Ao contrário dos três álbuns anteriores – todos gravados nos estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos – esta coleção de peças foi registada na sua casa de Nova Iorque, onde reside desde 2008, em plena fase de recolhimento, nos dias 31 de outubro e 1 de novembro do ano passado. Se os anteriores foram gravados em apenas um dia (esse balizamento temporal alimenta-o, disse-mo noutra entrevista há uns meses), neste caso o processo estendeu-se por dois. Existindo um plano na sua cabeça, não hesita em mudá-lo, se sentir essa necessidade, procurando esquivar-se a repetições e acrescentar algo novo.

A música que se escuta em “Casa” espelha pensamentos, memórias e experiências e também radica nas leituras que foi fazendo de Jorge de Sena, Stefan Zweig, W.G. Sebald, Julio Cortázar e outros: «A literatura é para mim uma espécie de mundo emprestado. Habitando nesses mundos, acabo por materializá-los em música.» Fica de novo expressa uma particular apetência por paisagens sonoras tranquilas, poéticas, mas jamais óbvias, algo que é bem vincado na bela fotografia da capa, do irmão José Sarmento Matos, que mostra em primeiro plano janelas iluminadas, destacadas numa Lisboa mergulhada na noite. «Talvez seja verdade que raramente tenho a necessidade de procurar atmosferas demasiado revoltas. Quando as procuro, nem sempre gosto do resultado. Mas também há inquietude, intranquilidade (e muita!) em ambientes poéticos», diz.

A abrir o álbum, “Deslumbre” é um tema particularmente “guitarrístico”, com os seus dedilhados luminosos e o uso de algumas cordas soltas na progressão de acordes. Em “Coordenadas” permanece o pendor nostálgico, tendo esta peça a particularidade, relativamente rara, de o escutarmos em baixo elétrico (possibilidade que, no entanto, já havia explorado em estúdio, desde os dois discos com Sara Serpa). A bela melodia de “Momento Menor” dá lugar ao apelo sinestésico da magnífica “Cidade Deserta”, que funciona como banda sonora de um documento fílmico imaginário dos tempos estranhos que temos experienciado («Há sempre para mim imagens que a dado momento acompanham trechos musicais», admite).

“Ode ao JS” é uma homenagem a Jorge de Sena e traduz musicalmente o ambiente de abismo e loucura que reteve após a leitura de “O Físico Prodigioso”. A mais contemplativa “Ponto de Vista” antecede outro dos melhores momentos do álbum, “Twilight/Flexible Materials”, de contornos mais sombrios. “Scent” é dedicada ao olfato, sentido que perdeu em março de 2020, cortesia do SARS-CoV-2. Não espanta, pois, que “People”, momento improvisado, evoque aqueles que lhe são mais próximos. O som quase de um sino que se escuta em “Cascata” é uma memória de infância (a cascata que se encontra no caminho entre a vila de Sintra e a Quinta da Regaleira). Tema antigo nunca revisitado, “The Night is a Muse” aconchega e deixa no ar a esperança em tempos melhores. Apetece voltar a Jorge de Sena: «Uma pequenina luz bruxuleante e muda / como a exatidão como a firmeza / como a justiça. / Apenas como elas. / Mas brilha. / Não na distância. Aqui / no meio de nós. / Brilha.»

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    Casa (Robalo)

    André Matos

    André Matos (guitarra elétrica; baixo elétrico em “Coordenadas”)