Two Maybe More

Pedro Moreira Sax Ensemble: “Two Maybe More” (Robalo)

Robalo

António Branco

Aguardar um disco novo do saxofonista, compositor, maestro e pedagogo Pedro Moreira (n. 1969) é quase como esperar pelo cometa Halley. Num itinerário de trabalho já com quatro décadas, “Two Maybe More”, com chancela da Robalo, é apenas o segundo álbum do músico lisboeta enquanto líder em nome próprio, sete anos depois do anterior, “Viagens”, editado pela Tone of a Pitch de boa memória. Oriundo de uma família com pergaminhos no meio cultural e jazzístico (é filho de Bernardo Moreira, contrabaixista do célebre Quarteto do Hot Clube de Portugal e posteriormente presidente da direção do clube, e da poeta, romancista e ensaísta Yvette Centeno), Pedro Moreira desenvolve a sua atividade em vários planos e isto ajuda a explicar a rarefação da sua produção discográfica.

“Two Maybe More” assenta num processo de reequacionamento e expansão da música original que escreveu para o espetáculo de dança de Sofia Dias, Vítor Roriz e Marco Martins (uma encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian) que subiu ao palco do Teatro Maria Matos em 2013, contando com textos originais do escritor Gonçalo M. Tavares e interpretação do Coro Gulbenkian e de um ensemble de câmara. Para operacionalizar a sua visão, Moreira reuniu desta feita uma formação de arquitetura inusitada – o Sax Ensemble –, que inclui oito saxofonistas (o próprio e Mateja Dolsák no tenor, Tomás Marques e Bernardo Tinoco no soprano, Ricardo Toscano e Daniel Sousa no alto, Francisco Andrade e João Capinha no barítono), e uma secção rítmica constituída por Mário Franco (contrabaixo) e Luís Candeias (bateria).

Ao jeito “ellingtoniano” (seguido, em boa medida, por outros músicos que admira, como Charles Mingus e Wayne Shorter, ou, mais recentemente, John Hollenbeck e Nils Wogram), adaptou a música já com estes músicos em mente, todos eles com fortes personalidades e, sobretudo, qualidades sonoras distintas e complementares. «Apesar de serem “mais do que dois”, pretendia que as identidades individuais não se perdessem no coletivo», disse Moreira em recente entrevista à jazz.pt.

A música que se escuta em “Two Maybe More” desafia delimitações estéticas, indo do jazz à música erudita contemporânea, seguindo uma abordagem que vinca, sobretudo, o seu lado de compositor e a relação de sempre com as práticas da improvisação, mais ou menos liberta de condicionalismos. Considerando todas as formas e possibilidades de expressão, sem que tal signifique uma utilização sistemática de todas elas, ressalta claro o propósito de exploração das dicotomias emergentes dos planos composição versus improvisação, individual versus coletivo, narrativo versus abstrato.

Equilibrando o rigor da escrita com a espontaneidade e a urgência da improvisação, as peças do novo álbum funcionam como vinhetas, pequenos mundos forjados em tempo real, cada um com as suas características próprias, assumindo, nas palavras do compositor, «uma vista caleidoscópica de várias possibilidades e combinações do ponto de vista da forma e da expressão musical.». Moreira admite que preferiu não dar grandes indicações aos outros músicos, esperando, ao invés, para ver para onde é que cada um pretendia ir, o que acabou por conferir à música particular frescura e naturalidade. Totalmente liberto da sequência original do bailado (sem a componente visual, tal ordem passou a carecer de sentido), eis um álbum duplo – para aqueles que ainda sabem o que isso é –, de certa maneira conceptual, em que o segundo disco acaba por ser uma espécie de espelho invertido do primeiro.

Toda a elegância formal da escrita de Moreira fica patente na relojoaria de peças como “Lado” (assim intitulada porque em cena nunca se via o perfil, só as caixas de madeira e os cantores de frente; coincidentemente, a peça é quase toda baseada nas notas lá e dó) ou “Dois, Talvez”, com as suas rodas dentadas em permanente interação. Esta última evoca o imaginário circense que perturbava o autor enquanto criança, colocando em contraste as suas dimensões melancólica e grandiosa.

“Stairways to the Stars” envolve-nos numa enganadora sensação de serenidade, que, ao intensificar-se, deixa os sentidos em prontidão. Mais garridas são “Giggly” e “Oh Cat”, em contraste com o negrume de “In Verso”. “Sonho” é uma balada que nada tem de convencional. “Brancas” (e sua brevíssima sequela no segundo disco, “Brancas Dois”), com a sua melodia etérea e pungente lirismo, é outro dos píncaros. “Binário” parte da ideia de um interruptor curto/longo, cuja ação se vai tornando mais desfocada até tudo acabar num sopro contínuo. Em “T3", uma magnífica intervenção a solo do contrabaixista é interpelada pelos saxofones barítonos, opondo fluência à rigidez. Ambas as peças exalam um perfume camerístico, sublinhando uma vertente devedora do rigor da tradição clássica.

“Improv 1”, “Improv 2” e “Improv 3” mostram o apreço do compositor por perscrutar territórios mais abstratos e experimentais. A sequência de ideias que são expressas em “Cinco” é demonstrativa de como, apesar das individualidades em presença, o que verdadeiramente sobressai é o intrincado labor coletivo, quer ao nível da repetição e da saturação deliberada do motivo, quer da alternância entre passagens marcadas pelo ostinato rítmico com outras mais planantes. “Two Maybe More” é um álbum em que coabitam uma abordagem cerebral e complexa e momentos de uma liberdade urgente e vital, cujos contornos melhor se descortinam em audições atentas e sempre recompensadoras. Soberbo.

  • Two Maybe More

    Two Maybe More (Robalo)

    Pedro Moreira Sax Ensemble

    Tomás Marques, Bernardo Tinoco (saxofone soprano); Ricardo Toscano, Daniel Sousa (saxofone alto); Mateja Dolsák, Pedro Moreira (saxofone tenor); Francisco Andrade, João Capinha (saxofone barítono); Mário Franco (contrabaixo); Luís Candeias (bateria)