Stillness in Time

Desidério Lázaro feat. Daniel Bernardes: “Stillness in Time” (edição de autor)

Edição de autor

Rui Eduardo Paes

Eis aqui mais um disco que reflecte os presentes tempos de confinamento covidiano. As composições foram escritas pelo saxofonista Desidério Lázaro em casa (relatando as «sensações vividas na quietude do lar») e a gravação foi realizada em duo com Daniel Bernardes ao piano no Hot Clube, sem público, quando o ano de 2020 estava a terminar. “Stillness in Time” é um álbum de canções, com tudo o que o formato implica, tanto em termos estruturais quanto de expressão das emoções, e estas não podiam ser outras que não as provocadas por estes dias de incerteza e fragilidade, mas também de esperança, tal como é apontado pelo próprio Lázaro nas notas desta edição que estará disponível nas plataformas digitais a partir de 23 de Abril.

O carácter fortemente melódico dos temas reunidos poderia ter vindo do universo da pop, algo que já aconteceu antes no percurso deste músico originário do Algarve, mas são outras as referências e estas explicam o envolvimento de Bernardes no projecto, dado o foco deste, tanto no que respeita à sua produção musical (oiça-se, por exemplo, a pessoal leitura que fez de Olivier Messiaen em “Liturgy of the Birds”) como em termos de estilo pianístico, no equacionamento do jazz com a chamada música clássica.

O modelo aqui perseguido é o do período romântico, ecoando muito em especial a influência das obras para voz e piano de Schubert e Schumann, com o saxofone a ocupar a posição do cantor. Umas vezes essa influência é indirecta e outras muito literal, como fica bem patente em “Good Morning, Mr. Poirot”, suscitando no ouvinte, inclusive, uma reflexão sobre o que na própria história do jazz, e na definição deste como género musical, há do legado do romantismo do século XIX. Poucas vezes se têm tecido considerações sobre este aspecto e uma delas foi por intermédio de Joelle Léandre, contrabaixista que ora improvisa, nos terrenos do jazz criativo, ora surge como intérprete de música contemporânea. Neste trabalho improvisa-se sobre o romantismo, estende-se este para o nosso presente, com Lázaro a esbater as diferenças entre leitura de pauta e espontaneidade, também esta regulada pela ênfase na melodia, e Bernardes, ao invés, a separar as águas, improvisando em “impromptus” que acrescentam notas, argumentos e “groove”.

Há qualquer coisa neste disco, como seria inevitável, do baladismo do jazz, e nesse particular nunca Desidério Lázaro terá estado tão próximo de um Ben Webster. Um Webster mais doce e melancólico, mais “europeu”, e sem dúvida que mais romântico, chegando por vezes a um nível de pungência que sabe não ser excessivamente açucarado, com o contrabalanço de alguma acidez. As peças vão-se sucedendo como «pensamentos trémulos que deambulam pela expectativa por dias diferentes, melhores, normais» e têm uma dimensão cinematográfica, se bem que preferindo atmosferas de mistério a descrições deterministas: somos nós que imaginamos as cenas no cinema que temos entre os ouvidos, segundo as formas como vivemos individualmente a reclusão obrigada pela pandemia.

  • Stillness in Time

    Stillness in Time (Edição de autor)

    Desidério Lázaro feat. Daniel Bernardes

    Desidério Lázaro (saxofone tenor); Daniel Bernardes (piano)