Turquoise Dream

Marta Warelis / Carlos “Zíngaro” / Helena Espvall / Marcelo dos Reis: “Turquoise Dream” (JACC Records)

JACC Records

Rui Eduardo Paes

Lembro-me deste concerto do Jazz ao Centro de 2019, mas não da maneira como aqui vem. Uma substancial parte do público que assistia à actuação do quarteto “ad hoc” documentado em “Turquoise Dream” não sabia ao que ia – eram senhoras da burguesia conimbricense, ali reunidas por causa do espaço, o Museu Nacional Machado de Castro, e não pela oferta, que desconheciam por completo. A música não lhes interessou e depressa se desdobraram as conversas, em alturas de voz que tinham mais cabimento nas suas salas de estar, à hora do chá (ou da falta dele), do que num local público. Educação, civismo, respeito pela arte e pelo outro são coisas que estão abaixo do nível destas pessoas. João P. Miranda fez milagres com a gravação, pois nada disso se ouve. A clareza com que percepcionamos cada instrumento e as relações entre os quatro reunidos, piano, violino, violoncelo e guitarra acústica, é notável. A música resultante, só agora percebo totalmente porque sem interferências auditivas, é excelente, especial mesmo. Os primeiros encontros entre improvisadores podem ser mágicos, e este é um óptimo exemplo disso.

De música integralmente improvisada se trata, mas o enfoque é composicional, confirmando a improvisação como uma prática outra, instantânea, de composição. Estão presentes neste registo quatro músicos – Marta Warelis, Carlos “Zíngaro”, Helena Espvall e Marcelo dos Reis – que estruturam enquanto improvisam, e que entendem o “playing” colectivo como elaboração de estruturas e de formas. Quando algum surge com um motivo, seja decorrente de outros anteriores ou em ruptura com esses, os demais intervenientes, atentos, pegam nele e desenvolvem-no. Fazem-no em dois planos, um de discorrência, com rigoroso foco no fluxo dos acontecimentos (casos de “Finer Grades” e “Specific Gravity”, a peça mais intensa do conjunto), e outro com contornos deambulatórios, em que um mesmo “tema” é partido em várias partes, três no caso de “Pale Bluish”, a mais longa das faixas, ou duas em “Blue to Green”, uma “azul”, a outra “verde” – e sim, em parâmetros cromáticos –, tal como sugerido pelo título.

As improvisações têm um carácter simultaneamente figurativo e abstracto, melódico/rítmico e textural, sem benefício de nenhuma dessas coordenadas. São, de algum modo, a transposição para o mundo sonoro da pintura de Francis Bacon, com figuras que são distorcidas e retorcidas até se tornarem manchas disformes de cor. É essa a imagética musical de Carlos “Zíngaro”, que aqui surge no melhor da sua criatividade, furando por entre cada janela e porta deixada aberta. Neste âmbito, é com muita naturalidade que ouvimos as repetições lexicais, colocadas ao serviço dos restantes músicos, por parte de dos Reis, algo que era considerado proibitivo nos primeiros tempos da música improvisada europeia. Ou que o mesmo reponha aqui ou ali linguagens guitarrísticas de outras proveniências. Por exemplo, em “Blue to Green” não teme a introdução de alusões idiomáticas à guitarra espanhola.

Se há alusões, mimetizações, a maior das quais à música de câmara tocada com cordofones de arco, despontam igualmente descolagens. A polaca, fixada na Holanda, Marta Warelis tem uma abordagem ao piano particularmente percussiva, mas está a milhas de distância do modelo cunhado por Cecil Taylor. Não é do free jazz que o seu pianismo provém, mas de uma música contemporânea que descobriu os ritmos da cumbia ou das músicas de dança de Angola, chegando finalmente ao jazz. E se um certo folclorismo é a ponte que une Warelis e “Zíngaro”, um admirador confesso de Bela Bartok, já a não-pertença da sueca Helena Espvall às caixas improvisacionais definidas nos anos 1960 e 70 pelas frentes britânica e alemã (o seu trajecto tem sido feito, sobretudo, no âmbito do psicadelismo norte-americano) coloca-a no quarteto como um elemento desestabilizador, em contraposições constantes com o que poderia parecer demasiado óbvio.

Vamos no início de 2021 e já aqui está o que será, sem dúvida, um dos discos do ano, valorizado por uma das capas mais impactantes que tenho visto nos últimos anos, da autoria de Joana Monteiro. Para ouvir em casa sem ter ao lado gente a comentar «ai que música tão esquisita» ou a falar ao telemóvel, gozando com quem está a tocar.

  • Turquoise Dream

    Turquoise Dream (JACC Records)

    Marta Warelis / Carlos “Zíngaro” / Helena Espvall / Marcelo dos Reis

    Marta Warelis (piano); Carlos "Zíngaro" (violino); Helena Espvall (violoncelo, electrónica); Marcelo dos Reis (guitarra acústica)