Some Kind of Tomorrow

Jane Ira Bloom / Mark Helias: “Some Kind of Tomorrow” (edição de autor)

Edição de autor

António Branco

Os tempos extraordinários que estamos a viver têm obrigado muitos músicos a deitar mão a estratégias várias para suprir a necessidade de criar e de fazer face às tremendas dificuldades em que se encontram, privados ou limitados do contacto físico com colegas e público. Esta situação é particularmente adversa para aqueles que se movem à margem da indústria e em territórios criativos arredados dos gostos multitudinários.

A saxofonista soprano Jane Ira Bloom (n. 1955) – poucos como ela optaram exclusivamente por esta variante do instrumento – e o contrabaixista Mark Helias (n. 1950) mantêm uma colaboração que remonta à década de 1970, operacionalizada em diferentes formatos e contextos e notavelmente fixada em discos como “Early Americans” (2016) e no monumental “Wild Lines: Improvising Emily Dickinson” (2017). E ao invés de repescarem processos cristalizados, apostam na renovação de práticas, com resultados que acabam por surpreender ambos. Desta feita, juntaram-se num conjunto de duetos improvisados de feição intimista, que a situação pandémica forçou a que, paradoxalmente, fossem desenvolvidos à distância, através do Zoom.

Apesar de separados no espaço e no tempo, o resultado que logram é magnífico. Os dois veteranos compositores e improvisadores revelam-se na plenitude da sua arte e apresentam uma coleção de diálogos profundos e eivados de uma poesia primordial. Não obstante as circunstâncias em que as gravações foram efetuadas, tudo se descortina com espantosa nitidez: as respirações, o som das chaves do saxofone, os estalidos das cordas contra a madeira.

«Não precisámos escrever nada. Não tivemos de planear nada. Nem necessitámos de conversar. Só tivemos de tocar para nos ligarmos um ao outro, à distância e como pudemos, porque tivemos de o fazer. Era muito difícil se fosse um som sozinho. Um som precisava de outro som», escreve Bloom em notas de apresentação do álbum. Declaração de intenções exemplarmente vertida nas peças que constituem “Some Kind of Tomorrow”. Para o fazer, a saxofonista não grita nem explode. A sua sonoridade mantém-se sóbria e refinada, perscrutando as possibilidades mais recônditas do seu saxofone, como se este fosse um prolongamento natural do seu próprio corpo.

Helias oferece-nos aquela sonoridade tão particular que há muito lhe reconhecemos, poderosa e aveludada, quer em pizzicato quer quando, notavelmente, recorre ao arco. «Estar confinado reformulou a minha apreciação do ato de interação musical e reafirmou a decisão que tomei há décadas atrás de explorar a música como o trabalho de uma vida. Depois de fazer as pazes com a situação e o meio, ouvir, sentir, ouvir e responder foram como sempre foram», sublinha o contrabaixista.

“Some Kind of Tomorrow”, em edição de autor e com distribuição digital exclusiva através do Bandcamp, não podia ser mais orgânico, nos seus jogos de ação e reação, de complementaridade e desafio. A abrir, a peça-título aponta o rumo, com o vincado lirismo do saxofone a aliar-se na perfeição às notas carnudas do contrabaixo. Seguem-se as linhas sinuosas de “Magic Carpet”, com Helias, em dado momento, a usar o arco para densificar a atmosfera. Em “Early Rites”, de início mais agitado, libertam-se espirais sónicas, para tudo logo serenar e convidar ao recolhimento. Ou de como o som pode ser tão importante quanto a sua ausência.

Ao cariz cinematográfico de “Willing” segue-se a requintada melodia de “Traveling Deep”, notável exercício de redução à essência. “Roughing It”, a peça mais extensa do álbum, adquire diferentes matizes que fluem com naturalidade, o que também acontece na mais sombria “Far Satellites”. “Pros & Cons” assume um travo “bluesy” que contrasta com a verdadeira viagem sonora que é “Drift”. Bloom num estado de graça que se prolonga em “Star Talk”.

«Não sei o que o amanhã trará», escreveu Pessoa enquanto aguardava a chegada da grande ceifeira. Jane Ira Bloom e Mark Helias assinam uma vital ode à resiliência e à esperança no futuro. Bem hajam pelo feito.

  • Some Kind of Tomorrow

    Some Kind of Tomorrow (Edição de autor)

    Jane Ira Bloom / Mark Helias

    Jane Ira Bloom (saxofone soprano); Mark Helias (contrabaixo)