Frequency Equilibrium Koan

Michael Gregory Jackson: “Frequency Equilibrium Koan” (Golden)

Golden

António Branco

Há discos que são verdadeiras cápsulas do tempo, documentando acontecimentos que em virtude das circunstâncias particulares em que ocorreram os tornam irrepetíveis. É o que acontece com “Frequency Equilibrium Koan”, registo gravado ao vivo em 1977 no Ladies' Fort, histórico “loft” localizado no número 2 da Bond Street, entre a Broadway e a Bowery, no bairro nova-iorquino de NoHo, por um quarteto liderado pelo guitarrista Michael Gregory Jackson (que também toca outros instrumentos), o saxofonista alto Julius Hemphill, o violoncelista Abdul Wadud e o baterista Pheeroan aKLaff.

No período balizado sensivelmente entre 1970 e inícios da década de 1980, em dezenas de “lofts” geridos pelos próprios músicos – por vezes residência, espaço de trabalho, estúdio e clube ao mesmo tempo –, brotou um movimento ligado ao jazz de vanguarda e à música improvisada (e não só) que deixou marcas indeléveis, em boa medida ainda por aquilatar devidamente. Michael Gregory Jackson, que tinha 23 anos à data desta gravação, recorda-se vividamente da intensidade dos tempos que então se viviam: «Essa cena era vibrante, abrangente, exuberante, original e incendiária. Todos nós fizemos as nossas próprias coisas, separada e conjuntamente, contidos e motivados, totalmente imersos no conforto ricamente abrangente das nossas conexões ancestrais», diz-nos em notas de apresentação do álbum.

O guitarrista, que teve de trocar o apelido pelo nome do meio para evitar confusões com o homónimo estelar, é um músico enaltecido como referencial por guitarristas como Pat Metheny, Marc Ribot, Bill Frisell e Mary Halvorson. A partir de raízes profundas nos blues, Jackson construiu uma abordagem muito pessoal e desbravadora, ao instrumento e à música. Robert Palmer, crítico da revista Rolling Stone, disse certa vez que Jackson sintetizava de forma original influências que iam de Stravinsky a Ellington, passando por Hendrix e Earth, Wind & Fire.

Virtualmente impossíveis de rastrear são os momentos precisos em que Jackson, Hemphill, Wadud e aKLaff cruzaram os seus caminhos. Apesar disso, logo no primeiro contacto com o genial saxofonista, Jackson recorda-se de ter ficado imediatamente impressionado pela sua inteligência e forma de estar. O encontro com o violoncelista ter-se-á dado mais ou menos na mesma altura, logo se desenvolvendo uma forte empatia musical, reiterada sempre que tocavam juntos. O guitarrista terá conhecido aKLaff no teatro La Mama, na Alphabet City, numa altura em que lá tocava amiúde com Oliver Lake (então comparsa de Hemphill no lendário World Saxophone Quartet), tendo ficado claro para ambos que aKLaff era o baterista ideal para a música que lhes ia nos neurónios.

Registado no ano seguinte à estreia discográfica de Jackson em nome próprio – “Clarity”, de 1976 –, “Frequency Equilibrium Koan” é uma preciosa contribuição para um melhor mapeamento da efervescente cena dos “lofts”. Quatro peças saídas de uma fase particularmente rica em termos criativos, captada no espaço gerido pelo cantor Joe Lee Wilson (rival do Studio Rivbea, de Sam Rivers) num gravador de cassetes Sony do próprio Jackson. A qualidade sonora não é de modo algum perfeita, sendo percetível um desequilíbrio na mistura e algum grão, o que até acaba por lhe conferir um encanto especial, como testemunho inapagável de um tempo passado.

O título do disco remete para os conceitos físicos de “frequência” (número de vezes que um dado fenómeno ocorre num período temporal) e de “equilíbrio” (estado de um corpo em que as forças sobre ele aplicadas contrabalançam mutuamente os seus efeitos), mesclando-os com o conceito espiritual de “koan”, termo usado no budismo zen para provocar a iluminação do praticante. Excetuando “Heart & Center” – peça que empresta o título ao álbum de 1979 para a Arista/Novus – nenhuma das demais composições figura em qualquer outro disco de Jackson.

“Frequency Equilibrium Koan”, a peça, é uma soberba introdução aos propósitos dos quatro músicos e à forma como se entregam a judiciosos exercícios de ação-reação, de processamento do material escrito e sua apropriação e expansão em tempo real. No centro do intrincado tricô sónico está o saxofone mercurial de Hemphill, acolitado pela agilidade do violoncelo de Wadud e pela pulsação vital de aKLaff, sempre com a guitarra do líder a gerir o que vai acontecendo. Contrastante em quase todos os aspetos, “Heart & Center” mostra o lado mais “funky” de Jackson, que propõe um motivo orelhudo que se torna o centro nevrálgico de uma massa plena de “groove”.

Em “Clarity 3”, Hemphill lança-se num voo picado sempre ligado a Wadud, o que nos traz de imediato à memória o que ambos fizeram em “Dogon A. D.”, obra-prima intemporal gravada em 1972. O contributo de Jackson acrescenta uma nova camada que se integra no conjunto sem que as individualidades se diluam no processo. Com a formação reduzida a trio (sem Hemphill) e Jackson a trocar a guitarra pela flauta de bambu, “A Meditation” é uma fascinante viagem espiritual que desafia espaço e tempo.

Passaram mais de quatro décadas, mas esta música ainda sabe a futuro.

  • Frequency Equilibrium Koan

    Frequency Equilibrium Koan (Golden)

    Michael Gregory Jackson

    Michael Gregory Jackson (guitarras elétrica e acústica, percussão corporal, sinos, flauta de bambu, composições); Julius Hemphill (saxofone alto); Abdul Wadud (violoncelo); Pheeroan aKLaff (bateria)