Javier Subatin: “Trance” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Já nestas páginas se falou de uma particular característica de Javier Subatin, guitarrista e compositor argentino que temos a viver e a trabalhar em Lisboa: a sua habilidade em aliar o reconhecível com o estranho. Neste “Trance” isso ainda mais se evidencia, pois a escrita aqui colocada em prática tem como factor a repetição de curtos motivos que catapultam as improvisações colectivas (com Daniel Sousa no saxofone alto e Diogo Alexandre na bateria) até chegar ao anunciado, no título, estado de transe. O reconhecível está na linguagem pós-bop adoptada e o estranho nos formatos e nos conteúdos, que integram elementos da música contemporânea, do folclore da Argentina (e não só, pois surgem alguns ritmos do Candombe uruguaio) e da música livremente improvisada. Até um tema de Duke Ellington, “C Jam Blues”, é submetido ao tratamento descrito.

Subatin dá-nos, assim, a ouvir uma música que tem os contornos convencionais do jazz, mas também estratégias que vão para além deste, em nenhum momento com uma linha condutora contradizendo a outra. A forma como ao longo das peças se utiliza o contraponto até ao extremo das suas possibilidades é bem representativa do conceito aplicado, com o “looping” das melodias e dos “beats” a determinar um uso concentrado de materiais. Eis um bom exemplo de como, com poucas notas, se faz muito. Mesmo o modo como composição e improvisação se relacionam é uma delícia: esta pode ser condicionada pela primeira, mas tem primazia tanto em termos de presença quanto de propósito, pois as pautas deixam para ela (para o trio de improvisadores) a tarefa de construir à volta dos alicerces. Pois aqui está um importante disco do jazz que se cria em Portugal…