Dudu Phukwana and The Spears

Dudu Phukwana: “Dudu Phukwana and The Spears (Matsuli)

Matsuli

Gonçalo Falcão

Este duplo LP guarda uma preciosidade. Reedita o original “Dudu Phukwana and The Spears”, gravado em 1968 e que só tinha sido lançado na África do Sul pela Trutone. Tem ainda, no segundo LP, os dois lados de um acetato inédito gravado para a Atlantic em 1969. A história conta-se assim: em 1964 os Blue Notes (Chris McGregor, Mongezi Feza, Dudu Phukwana, Nikele Moyake, Johnny Dyani, Louis Moholo-Moholo) tiveram um convite para ir tocar às Antilhas francesas, de onde decidiram não mais voltar para a África do Sul do Apartheid. O facto de serem um grupo com diferentes “raças”, brancos e negros misturados, punha-os na mira do governo e dos clubes locais. As oportunidades para tocar na África do Sul eram mínimas.

A história do jazz sul-africano exilado na Europa e, em particular, em Londres é razoavelmente conhecida; o que não sabíamos é que, em 1969, Phukwana regressou a casa numa visita breve. Levava consigo Joe Boyd, o produtor de uma sessão feita em Londres. Gravaram as canções Mbaqanga (um estilo com raízes rurais Zulu) de Phukwana, com o “swing” das canções das “townships”. Boyd conseguiu interessar a editora Trutone de Joanesburgo a editar a “master” londrina, que acabou por ficar unigénita. E assim saiu o disco original, hoje raríssimo, apenas na Africa do Sul, na “label” local Quality.

O segundo disco, ainda mais extraordinário no campo da arqueologia musical, vem de um acetato que apareceu numa colecção de vinil americana. Foi gravado na mesma altura, numa ida à América, nos estúdios da Atlantic em Nova Iorque, em circunstâncias que já não se conseguem reconstruir totalmente. O mistério à volta destas gravações é meticulosamente analisado nas “liner notes” escritas por Richard Haslop para esta edição, que também tem as originais de Peter Sinclair.

As músicas foram gravadas com diferentes formações, algumas delas com registos lacunosos, presentes só na memória do produtor. Além dos sul-africanos, os músicos incluem Bob Stuckey no órgão, Teddy Osei no saxofone tenor, talvez Phil Lee na guitarra, talvez alguns músicos do Gana (Jonas Gwangwa, Remi Kabaka, Tunji Oyelana). Neste processo de escavação, feito com imenso cuidado pela Matsuli, perdeu-se alguma informação, mas foram feitas várias entrevistas e audições para que o duplo LP que agora temos em mãos respeite a beleza única e a originalidade pioneira destas músicas.
E que qualidade de som, que músicas excelentes! No fim é isso que importa mesmo. Um grande disco que se ouve com imenso prazer.

Dado que estas são os primeiros registos a solo de um músico sul-africano, os desta edição têm uma importância histórica acrescida. Mas muito mais do que a arqueologia, o mistério e a história, as duas rodelas pretas têm música apaixonada, música que radica na das “townships” como uma catarse e uma salvação. Nos anos 1970, em Londres, este jazz não era próprio, legítimo e, por isso, estava guetificado num clube com um pequeno grupo de seguidores. As grandes dificuldades financeiras causadas pela falta de público tiveram custos. Phukwana enterrou-os em álcool.

Só passaram 50 anos destas gravações, mas foram cinco décadas de mudanças profundas no mundo e, em particular, naquele país cheio de música discriminada que Paul Simon homenageou em “Graceland”. No disco inaugural ouvimos Phukwana no seu melhor e uns Spears afiados, puros, alegres, a tocarem melodias dançáveis. Das que trazem consigo as saudades de quem está exilado e não pode regressar àquilo que verdadeiramente é. Ouvem-se em “repeat” e instalam alegria.

  • Dudu Phukwana and The Spears

    Dudu Phukwana and The Spears (Matsuli)

    Dudu Phukuana

    Dudu Phukwana (saxofone alto); Mongezi Feza (trompete); Joe Mogotsi (voz); Richard Thompson, Simon Nicol (guitarra); Bob Stuckey (órgão); Harry Miller (contrabaixo); Louis Moholo (bateria)