Aki Takase / Christian Weber / Michael Griener: “Auge” (Intakt)

Gonçalo Falcão

O trio de piano, contrabaixo e bateria é uma receita clássica do jazz que produz um som pensativo e aberto, com o pianista a ser o protagonista e a secção rítmica a adicionar densidade e ideias. Bud Powell, Oscar Peterson, McCoy Tyner, Chick Corea, Dave Burrell, Bill Evans, Brad Mehldau, Keith Jarrett e The Bad Plus são alguns dos nomes que primeiro afluem à memória dos meus ouvidos, mas o leitor consegue facilmente identificar ausências notáveis. É no trio de Bill Evans - que revolucionou o formato no final dos anos 1950 – que radica este novo trio de Takase, com uma música arejada e meditativa, que soa melodicamente natural.

É um regresso em força da pianista Aki Takase: presente em espírito no “Slow Pieces for Aki”, lançado pelo seu marido, Alexander von Schlippenbach, no ano passado, deixou marcas em 2019 com “Hokusai - Piano Solo”, “Kasumi” (com Ingrid Laubrock) e “Fifty Fifty” com (Rudi Mahall). O disco que surgiu logo no início deste ano diferente mantém a excelente qualidade do piano, das ideias, da escrita, dos temas e da execução – principalmente da execução -, com cada nota a pesar tanto quanto o espaço entre elas. Os músicos que a acompanham, Christian Weber no contrabaixo e Michael Griener na bateria, são o ponto fraco deste álbum. Não porque os músicos sejam menores – muito pelo contrário, são tecnicamente muito aptos e têm uma boa capacidade de adaptação e resposta –, mas porque não acrescentam ideias, não criam diálogos incómodos, não tiram a música do local onde ela assenta. O piano é o grande centralizador e é quem parece definir tudo, mesmo quando se trata de improvisações do grupo, o que constitui a maior parte dos casos (nove em 14). Mesmo nas improvisações colectivas, parece que estamos a ouvir composições feitas pela pianista. “Auge” tem um som claro e luminoso, bonito de ouvir, agradável, com um teclar ímpar, mas o duo rítmico penhorado no piano não lhe acrescenta novas perspectivas, questões ou desafios.