João Almeida / Fred Lonberg-Holm / João Pereira: “Live at Zaratan” (JAR)

Rui Eduardo Paes

Gravado ao vivo na Zaratan, em Lisboa, nas vésperas do primeiro confinamento (Março de 2020), este é o documento do encontro do trompetista João Almeida com Fred Lonberg-Holm, violoncelista norte-americano com residência em Portugal, e o baterista João Pereira. Integralmente improvisada, a música que ouvimos nas duas longas faixas tem a inquietude e a intensidade que são de esperar quando as opções estéticas derivam das matrizes free jazz e free rock – e bem que, em “Take 1”, o trompete e o violoncelo puxam as tramas para um e para o outro lado, por vezes em simultâneo (ocasiões há em que Lonberg-Holm mais parece tocar uma guitarra eléctrica com distorção). Sem “riffs” ou métricas fixas, a música está em constante mutação, ora crescendo ora diminuindo de espessura, ora fraseando ora estabelecendo texturas, mas sempre com sentido de fluxo e desenvolvimento.

Almeida coloca em jogo todo o seu arsenal de recursos técnicos e expressivos, saltando de um trompetismo tipicamente jazz para as abordagens extensivas das novas tendências da música improvisada em que despontaram Peter Evans ou Axel Dorner, com regresso ao primeiro plano sempre a acontecer. Em ambos os casos pegando em poucos materiais (três ou quatro notas, por exemplo) para a partir deles explorar até ao limite todas as implicações. Esta é uma música que se dá tempo, designadamente tempo de construção, e isso apesar das mudanças de rumo que vão surgindo. Cada uma destas surge em consequência, e não por corte, numa lógica interna sempre impressionante. Mais meditativo e pausado (mas não menos irrequieto) é “Take 2”, no início com Lonberg-Holm a reter-se nos agudos, fazendo com que o violoncelo soe como um violino ou uma viola. À medida em que avançamos no tema este vai-se gradualmente dissipando, até chegarmos ao silêncio. O excelente concerto que este foi tornou-se agora num belíssimo álbum.