Rafael Toral: “Under the Sun” (Noise Precision Library)

Rui Eduardo Paes

Começamos a ouvir este “Under the Sun” e o que logo nos aparece é um típico trio de free jazz com saxofone alto (Nuno Torres), contrabaixo (Hugo Antunes) e bateria (Nuno Morão). Até que surge Rafael Toral, moldando “feedbacks” que ora são acústicos, ora electrónicos, parte deles tirada de um amplificador modificado. A não ser pelas associações históricas que fazemos com o rocksichord de Sun Ra e os sintetizadores analógicos de Richard Teitelbaum em duo com Andrew Cyrille, esta combinação surge-nos como outra coisa – até porque, em vez de teclas, esse trabalho é realizado com botões de rodar. O músico português traz o free jazz para outro âmbito, e este encaixa-se e desencaixa-se simultaneamente com o, e do, chamado “cosmic jazz” que o referido Sun Ra cunhou.

Como vem sendo de regra por parte do Toral de depois da fase guitarrística e ambiental, esses “feedbacks” desenvolvem-se segundo linhas em tudo semelhantes aos fraseados dos instrumentos de sopro, respirações incluídas. É como se, ao lado de Torres, tivéssemos um trompete. Neste plano, sente-se muito particularmente a influência de Sei Miguel, mas a música vai mais longe em termos de implicações. Este é um free jazz hiper-realista, e no mesmo sentido que o hiper-realismo teve como corrente nas artes plásticas. Trata-se de uma realidade aumentada, mas porque tal premissa exige toda uma cenografia e uma encenação (ao nível das atmosferas criadas tanto quanto do discurso) é também um “fake jazz”, remetendo-nos igualmente para os Lounge Lizards de John Lurie. Ou seja, o Space Quartet não é apenas um grupo de free jazz com electrónica: neste projecto, esse mesmo free electrónico surge como teatro musical, como um free jazz que é a representação do free jazz. Algo de especialmente curioso, sabendo nós que a música é a única arte não-representativa.