Gonçalo Almeida: “Monólogos a Dois” (A New Wave of Jazz)

Rui Eduardo Paes

Sendo a livre-improvisação uma música iminentemente colectiva e criada ao vivo, o solo absoluto (um só instrumentista) foi definido como um “monólogo a dois”, mas este “a dois” tem como subentendido que se trata de uma relação directa entre quem toca e a sua audiência. Em tempos de pandemia (este LP foi gravado em Julho do ano passado numa igreja vazia de Roterdão), Gonçalo Almeida assumiu a solidão do acto criativo e centrou essa relação entre si mesmo e o seu instrumento, ainda que o propósito do registo fosse a partilha com outros ouvidos – não muitos, dado que se fez apenas uma edição de 100 exemplares deste vinil. O resultado está bem patente em dois aspectos: um é a fisicalidade do jogo e do “playing” entre contrabaixista e contrabaixo, por vezes parecendo mesmo que assistimos a uma luta (ou a uma dança) entre ambos, e o outro está no carácter exploratório, investigativo, das intrigas urdidas.

Essa solidão é ouvida a cada momento na muito próxima presença do contrabaixo, nos gestualismos que imaginamos por parte do contrabaixista (algo que nos vem da memória de quando havia concertos com público) e no modo como o espaço – um espaço que sentimos vazio – enforma o que os dois corpos, o do músico e o do contrabaixo, fazem um com o outro, um sobre o outro, um procurando dominar, o outro resistindo ou colocando-se de acordo, numas ocasiões sobressaindo o querer do músico, noutras vingando a vontade do instrumento e, aqui e ali, conseguindo-se uma paridade e até o que pode passar por empatia. Os geralmente curtos 12 “monólogos a dois” distinguem-se pelos motivos que cada um desenvolve, e chegamos inclusive a imaginar uma mesa de dissecção no altar da igreja. Almeida tenta desmontar os órgãos do contrabaixo e remontá-los de outra maneira, mas este é um corpo vivo e autónomo com os seus próprios maquinismos e o que sucede nem sempre parece coincidir com as determinações que, supomos sem ver, vêm do corpo humano. Quem diria que o confinamento pandémico a que estamos obrigados se traduziria numa outra abordagem musical à improvisação, mas aqui está a prova.