Welcome to Silkeborg: “Alba” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Apesar de o nome nos remeter shakespearianamente para o reino da Dinamarca, Welcome to Silkeborg é um duo português, formado pelo veterano Monsieur Trinité (Plexus de Carlos “Zíngaro”, grupos vários de Sei Miguel e Ernesto Rodrigues e elemento do saudoso Colectivo Orgástico) e por Tiago Varela, um de muitos arquitectos que a livre-improvisação vai requisitando neste país, característica essa que, aliás, já merece estudo. Se em outros contextos, incluindo uns tantos ao vivo (o disco reúne gravações de concertos de 2014 e 2018) deste mesmo projecto, encontrámos Varela a tocar piano eléctrico e órgãos menos comuns, aqui surge com um par de melódicas, instrumentos que, regra geral, têm um uso meramente cromático ou de complemento tímbrico, o que não é o caso neste álbum. Trinité utiliza o seu habitual “set” de percussão, se bem que, como sempre, o designe por «objectos vários», de modo a não ser conotado com práticas percussivas mais conformes com o estabelecido, como as da música erudita ou do jazz.

O inconformismo é, de resto, chave neste “Alba”, dedicado ao artista plástico Giuseppe Pinot-Gallizio, iniciador da chamada “pintura industrial” e um dos fundadores da Internacional Situacionista. Essa particularidade vem igualmente do modo como Tiago Varela toca as melódicas, em nada se parecendo com o que vulgarmente se faz com as ditas, especialmente ao nível da exploração de harmónicos e microtons – o que é notável, tendo em conta as limitações intrínsecas deste recurso musical. A forma como combina as melódicas com a voz lembra figuras como Roland Kirk e Ian Anderson, e isto num contexto de muitos espaços e transparências, com os silêncios e os pequeníssimos detalhes a um ou a dois a terem tanta importância quanto os demais fraseados e texturas. A abordagem é introspectiva e sensorial, com a música a sugerir que vogamos ao sabor dos ventos e das correntes num imenso, calmo e brilhante oceano de Verão.  Vale a pena ouvir.