João Madeira / Hernâni Faustino: “dB Duet” (FMR)

Rui Eduardo Paes

A foto do interior deste “digipack” é bem elucidativa do que foi o concerto aqui registado: no palco estão dois contrabaixos e respectivos executantes, João Madeira e Hernâni, rodeados por uma floresta de colunas de som, ou o local não fosse o O’culto da Ajuda, em Lisboa, e o responsável da gravação Miguel Azguime, conhecido pela Orquestra de Altifalantes com que habitualmente apresenta composições acusmáticas, suas e de outros autores. Graves, agudos e intermédios são exponenciados por vários canais. Ouvimos o mais pequeno pormenor do que cada um dos músicos faz, como se estivéssemos uns centímetros diante dos instrumentos (mais ainda se a escuta for realizada com auscultadores). Ou seja, as três faixas do CD são de um maximalismo impressionante em termos de clareza, presença e detalhe, como se fosse possível observar a criação musical ao microscópio (ao telescópio?). Só que, neste caso, trata-se de música integralmente improvisada.

É a uma conversa entre iguais que assistimos, mas esta não se desenvolve em termos de concordância – algo que, ingenuamente, se entende que a música deve ser, uma incorporação una, cerzida, frankensteiniana, de cabeças, troncos e membros. A comunicação humana é bem mais complexa e contraditória do que isso, e o que vem nesta edição da inglesa FMR (sempre atenta ao que se faz em Portugal) surge-nos, sim, como um deleuziano corpo sem órgãos. Madeira e Faustino podem, por vezes, entrar em sintonia, mas no essencial o que ouvimos é discordância, contra-argumentação, conflito. Ora, o conflito é criativo e um importantíssimo factor de intriga, e o que este disco nos traz é precisamente isso, intriga, narrativa, uma sucessão de ideias com as suas lógicas específicas, que não apenas intuitivas (pois, há aquela noção de que improvisar é apenas intuir), e de histórias com registos emocionais vários, podendo ir do lamento à raiva e da explosão de alegria a uma imensa melancolia em poucos minutos. Nenhum dos contrabaixistas dirige ou acompanha, não há primeiros planos nem submissões ou estares passivos: tudo o que acontece, acontece em liberdade. Quem disse que até a um nível interpessoal tem de haver hierarquias?