Bernardo Devlin: “Próxima B” (NAU)

Rui Eduardo Paes

Aviso prévio: este não é um disco de jazz, nem um disco de música improvisada. Sendo um disco de canções, numa linha que por vezes lembra Scott Walker ou o David Bowie de “Blackstar” e de anteriores e coincidentes momentos da carreira do Major Tom, há, no entanto, nele um vínculo claro com esses circuitos. Bernardo Devlin foi um dos fundadores dos Osso Exótico de David Maranha, um dos pilares históricos do espontaneismo exploratório em Portugal, e o seu percurso de cantautor tem acompanhado (ou tido a participação de) os de vários músicos que habitualmente a jazz.pt vai referindo nestas páginas. Neste “Próxima B” encontramos, por exemplo, o violetista Ernesto Rodrigues e a violoncelista Helena Espvall, dois nomes da nebulosa Creative Sources.

Se na referida editora e frente criativa ambos os acima referidos vêm contribuindo para uma abordagem camerística à improvisação do século XXI, nesta nova colecção de temas de Devlin ei-los a fazerem o mesmo num enquadramento situável algures entre a folk e a pop, enquadramento esse em que as guitarras de Pedro Ferreira, Carlos Andrade e João Milagre são os eixos. Esta é uma folk-pop dissidente, alternativa e integralmente acústica, de sabor “clássico” e especial elegância, sempre com tempos lentos, baladeiros, e atmosferas escuras e introspectivas. E sim, fica muito óbvio que o trabalho dos improvisadores envolvidos é fundamental para os resultados fora da caixa. Vale bem a pena deitar-lhe o ouvido.