João Almeida: “Static I” & “Static II” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Trompetista da nova geração da música improvisada e do jazz criativo nacionais, João Almeida tem algo mais a mostrar – algo que, diga-se já, não lhe conhecíamos ainda – e está nestes dois álbuns em suporte digital e edição DIY. “Static I” é uma peça de “field recording” (a ficha técnica não indica a origem das gravações, mas também pouco importa) em que o músico de Lisboa manipulou os tempos. Ouvimos como que o zumbido de um enxame de insectos metálicos a aproximar-se e a distanciar-se, contradizendo a percepção de que o estático está parado. Os princípios são os do ambientalismo, mas entrando nos domínios da música concreta ou acusmática. Estranhamente, a modulação dos materiais poderia ter sido criada por um trompete: Almeida reproduz aqui o tipo de linhas deambulatórias que constrói enquanto instrumentista e que identificamos com as pesquisas trompetísticas de um Peter Evans (seu mestre, aliás) ou de um Axel Dorner.

“Static II” pega na mesma ideia de suspensão temporal para chegar a outros sítios. Através de um simulador virtual de síntese modular forja repetições ou “drones” em elipse, e, se é frequente haver cortes súbitos e mudanças de direcção, os mesmos padrões vão-se reinstalando, fragmento a fragmento, ciclo a ciclo. A abordagem é também outra: enquanto “Static I” se dá a ouvir como paisagem, os dois movimentos desta outra peça puxam-nos para o seu interior. O contemplativo dá lugar ao imersivo. Os sons escolhidos e as arquitecturas que deles derivam remetem-nos para a electrónica universitária americana da década de 1950, mas com a irrequietude de um Frank Zappa ou de um John Zorn. Neste caso, a perspectiva já não é a do trompetista, mas aquela que esperamos de um orquestrador. João Almeida, um nome que temos definitivamente de fixar.