Martingale

Denman Maroney: “Martingale” (Edição de autor)

Edição de autor

António Branco

Ao longo de mais de quatro décadas, o pianista, compositor e pedagogo norte-americano Denman Maroney (n. 1949) tem vindo a desenvolver um universo sonoro idiossincrático. A partir do aproveitamento total do piano – para além das 88 teclas, os pedais, a tampa, a caixa, as cordas e demais entranhas, tangidas e percutidas por diferentes objetos – criou o conceito de “hiperpiano”, numa lógica de expansão do vocabulário associado à sonoridade convencional do instrumento.

Maroney desenvolveu igualmente uma linguagem composicional própria que envolve diferentes pulsações e tempos, a que chamou “harmonia temporal”. Assim tem vindo a erguer um corpo de trabalho muito particular, no qual gere a coabitação de elementos de diferentes géneros e transforma os sons que conhecemos ao adicionar-lhes novas dimensões. Dando sequência a uma abundante discografia que se espraia por mais de três dezenas de títulos como líder ou co-líder, Maroney trouxe-nos em 2020 “Martingale”, edição de autor distribuída apenas em suporte digital.

O quarteto que operacionaliza desta feita a sua visão musical integra o saxofonista e clarinetista Steven Frieder (o que acontece pela primeira vez), o contrabaixista Ratzo Harris e o baterista e percussionista Bob Meyer, dupla rítmica experimentada com quem formou o trio Alt.Timers, responsável em 2017 pelo álbum “CRISPR”, acrónimo de “Clustered, Regularly Interspaced, Short Palindromic Repeats”, ou seja, “repetições palindrómicas curtas agrupadas e regularmente interespaçadas” (em tradução livre), expressão utilizada para designar pequenas sequências de ADN bacteriano constituídas por repetições de nucleotídeos.

Da genética para o jogo. A palavra “martingale” refere-se originalmente a uma tipologia de estratégias de apostas muito popular na França do século XVIII, entendida como virtualmente infalível. A mais simples destas estratégias foi concebida para um jogo em que o apostador duplicava a sua aposta se numa moeda saísse cara, perdendo-a se saísse coroa. A estratégia implicava duplicar a aposta sempre que o apostador perdia, por forma a que, mais cedo ou mais tarde, ganhasse, recuperando todas as perdas mais a aposta inicial.

Em “Martingale”, Maroney volta a exibir a sua pena meticulosa, com grande atenção aos detalhes, surpreendendo o ouvinte com diferentes camadas, articulações e complementaridades entre o material composto e as improvisações. “All in the Loop” funciona como banda sonora à medida dos tempos excecionais que estamos a viver, com as suas súbitas mudanças de intensidade e direção, assente num motivo que é apresentado, extrapolado e retomado no final. O dinâmico “Blind Love” é prova dos ótimos níveis de interação que o quarteto logra, sobretudo através da relação que se estabelece entre saxofone (com Frieder a mostrar as suas credenciais enquanto improvisador) e piano, suportada por uma efervescente secção rítmica.

Na sua cadência mais solene, “Curl” é uma peça intrigante naquilo a que Maroney chama “camadas de tempo” (neste caso são três), com o contrabaixista a recorrer ao arco. A peça-título parece constituir uma das traves mestras do álbum (a outra será “Primal Sympathy”), com o piano esparso, o saxofone a insinuar-se melodicamente e Meyer exemplar no “drive” impetuoso que conduz nos címbalos.

“New One Two” desenvolve-se como uma melopeia hipnótica e “Off Centerpiece” é um blues que resulta de uma leitura de “Centerpiece”, original de Harry Edison e Jon Hendricks. “Peer to Peer” funda-se numa vibrante aliança entre piano e clarinete, com contrabaixo e bateria decisivos para a construção sonora.

O forte pendor camerístico de “Primal Sympathy” muito deve à intervenção de Harris, em estreita conexão com o piano, adensando uma atmosfera que tem tanto de misteriosa como de cativante. Tudo muda e ganha outra força com a entrada em cena da bateria. Novo volte-face traz a peça de regresso a tempos mais lentos, caminhando para um epílogo em que avulta uma belíssima intervenção do saxofonista.

“Sea Set Wheat” e “Set Sea Sank” (conjugações de palavras quasi-homófonas com as francesas “six-sept-huit” e “sept-six-cinq”, respetivamente) utilizam as “camadas de tempo” explicitadas nos títulos. Na primeira, Maroney faz uso do hiperpiano, que encontra no contrabaixo notável comparsa, escutando-se também um consequente solo do baterista, antecâmara para a secção final. A segunda é marcada pelas linhas desenhadas pelo clarinete de Frieder, em torno das quais se agitam os demais instrumentos. A mais esdrúxula “Time’s Out” surpreende pelas métricas rítmicas instáveis e é um dos pontos mais expressivos da jornada.

Denman Maroney continua a ser uma importante força criativa e “Martingale” demonstra-o inequivocamente.

  • Martingale

    Martingale (Edição de autor)

    Denman Maroney

    Steven Frieder (palhetas); Denman Maroney (piano, hiperpiano); Ratzo Harris (contrabaixo); Bob Meyer (bateria, címbalos)