Early Morning Star

Bob Gluck: “Early Morning Star” (FMR)

FMR

António Branco

O pianista e compositor (também pedagogo, ensaísta e rabino) norte-americano Robert “Bob” Gluck (n. 1955) já nos ofereceu registos relevantes, como sejam “Sideways” (2008) e “Returning” (em trio com o contrabaixista Michael Bisio e o baterista Dean Sharp e com selo da britânica FMR) ou o dueto com Aruán Ortiz em “Textures and Pulsations” (Ictus, 2012), para pianos e eletrónica. Influenciado tanto por Bach e Stockhausen como por Ornette e Hendrix, do seu percurso avultam também colaborações com Billy Hart, Eddie Henderson, Jane Ira Bloom e Joe Giardullo, entre diversas outras.

O seu mais recente álbum, “Early Morning Star”, é constituído por um conjunto de peças interessantes nos planos composicional e das improvisações, individuais e coletivas, carregadas de mensagens sociopolíticas e espirituais. Com Gluck (que, à exceção de uma, assina todas as composições) estão nesta jornada o experimentado contrabaixista Ken Filiano, a cantora Andrea Wolper, o clarinetista sírio Kinan Azmeh e o sempre surpreendente baterista Tani Tabbal.

O disco abre com a riqueza polifónica de “A Time of Singing”, peça agregadora de diferentes padrões melódicos e texturas (cerzidas por Filiano), base a partir da qual se eleva a voz de Wolper que, num registo quase-operático, se entrega a textos retirados do bíblico Cântico dos Cânticos, evocativos do início da primavera como tempo de regeneração e recomeço. O texto do tema-título assenta numa paráfrase do profeta Isaías, interpretada com clareza pela cantora, que interage notavelmente com as linhas elípticas desenhadas pelo clarinete de Azmeh.

“Emerge-Ency” é a primeira peça puramente instrumental, de contornos angulosos e assente na repetição de notas, com contrabaixo, clarinete e bateria em delicioso torvelinho. É mais uma vez Filiano quem se destaca, com um solo que apetece voltar a escutar, uma e outra vez. De recorte mais camerístico, “Flowing” começa com uma frase explanada em uníssono que abre caminho para uma improvisação coletiva demonstrativa da empatia alquímica lograda pelos músicos.

Gluck explana, a solo, o lado mais lírico da sua abordagem no sereníssimo “For Today”, em que o motivo central é desenvolvido com requinte e vagar. A atmosfera inquietante de “Friday Song” expressa preocupações ambientais e sociais e vinca as oportunidades civilizacionais que em circunstância alguma podemos dar por adquiridas: «Fragile is this slender perch, risk free at a bargain price. Ever reckless are our hands. One time only; we have this chance; just one.»

Em “Here Now” há um antes e um depois de outro belíssimo solo de Filiano. Se o início fora marcado pelo sentido de urgência, a segunda parte constitui verdadeira “tour-de-force” para o clarinetista, que exibe toda a sua sensibilidade melódica. “Never Ceasing” é um repto ao inconformismo («We will not cease, we will carry on») e “Not For Today”, introduzida por uma longa deambulação do piano, recebe a dada altura afluências significativas dos demais instrumentos. A cantora reitera atributos enquanto improvisadora singular e Azmeh faz, desfaz e refaz a melodia-base. “Today Today” abre com um diálogo entre clarinete e contrabaixo, a que se juntam a bateria precisa e o veemente piano. O álbum encerra com “Tzur Mishelo”/“Los Bilbilicos”, temas da tradição sefardita re-harmonizados por Gluck.

“Early Morning Star” é um álbum reconfortante e apaziguador em tempos estranhos; celebremo-lo, pois.

  • Early Morning Star

    Early Morning Star (FMR)

    Bob Gluck

    Bob Gluck (piano, composição); Andrea Wolper (voz); Kinan Azmeh (clarinete); Ken Filiano (contrabaixo); Tani Tabbal (bateria)