Samuel Gapp: “Trio & String Quartet” (Casa Bernardo Sassetti)

Rui Eduardo Paes

Na intersecção do jazz com a música erudita, a música que o jovem pianista e compositor Samuel Gapp nos propõe neste disco – e que lhe valeram o Prémio de Composição Bernardo Sassetti do ano passado – só não se inscreve na herança da third stream porque parte, e desenvolve-se, por outras lógicas que não a da mera fusão de linguagens. O que vem do jazz e o que vem da clássica não encontram no seu cruzamento um fim – trata-se, como fica desde logo bem claro, de um meio. O quarteto de cordas constituído por Jaime Jacob, Sofia Francisco, Beatriz Acosta e Pedro Massarrão não se fica por dar uma cor camerística a este jazz especialmente elegante, ainda que nas suas funções não esteja, propriamente, improvisar. De resto, basta ouvi-lo a encorpar o “drive” e até o “groove” das peças para perceber que é outro o cenário procurado. Do mesmo modo, o suposto trio de piano jazz, com André Rosinha no contrabaixo e Diogo Alexandre na bateria, não se fecha nessa condição, até porque os timbres em presença se enovelam em todos os momentos, sem grandes distinções de papéis para além daquelas que são de esperar quando estão envolvidos três instrumentistas de jazz.

Gapp terminou os seus estudos na Escola Superior de Música de Lisboa sob a orientação de João Paulo Esteves da Silva, e isso pressente-se. Não porque segue as mesmas linhas do seu mestre, mas por deste herdar um semelhante sentido de pormenor, de sofisticação formal e expressiva e de uma entrega que, com (a partir de) Esteves da Silva, tem feito alguma escola. Temos, pois, com este estreante “Trio & String Quartet” mais um caso de paixão do jazz pela clássica e vice-versa, uma abordagem que, com Daniel Bernardes, surgiu como uma semente. Com uma diferença substancial: se o trabalho deste tem uma óbvia dimensão conceptual, Samuel Gapp parece mais interessado em explorar matérias-primas. É como se estivéssemos diante de um filósofo especializado em metafísica (Bernardes) e outro nas questões da práxis (Gapp), sem grandes mediações teóricas. Agora, resta-nos esperar pelo que virá a seguir, de modo a sabermos onde nos levará o caminho que aqui se abre. Promete.