Pocket Poem

Anthony Pirog: “Pocket Poem” (Cuneiform)

Cuneiform

António Branco

Anthony Pirog não será para muitos um nome que faça soar campainhas. Mas o guitarrista e compositor nascido em Lewisburg, Pensilvânia, e criado nos subúrbios de Washington, D.C., já tem atrás de si uma trajetória sólida e multifacetada. Antes de tergiversar para outros territórios criativos, estudou guitarra jazz no Berklee College of Music. Fundou com a violoncelista (e sua mulher) Janel Leppin o duo eletroacústico Janel and Anthony, que nos ofereceu, entre outros, o recomendável “Where is Home” (2012), editado pela Cuneiform.

A abordagem inusitada de Pirog é uma espécie de caixa negra onde é processado mais de meio século de prática guitarrística elétrica, desde os blues às explorações com diferentes dispositivos eletrónicos. Rapidamente transita de um registo etéreo para a mais abrasiva das passagens, com ou sem gradação intermédia, não significando isso incoerência ou perda de foco. Escutam-se ecos de Americana servidos por Bill Frisell, ruídos devedores das ruminações de um Glenn Branca, experimentações livres inspiradas pelo enorme Henry Kaiser.

“Pocket Poem” surge após dois álbuns e uma digressão mundial com os Messthetics, “power trio” que formou com os ex-Fugazi Brendan Canty e Joe Lally e que acrescenta pontos a toda uma linhagem que se inicia lá atrás com os seminais Cream ou Jimi Hendrix Experience e se expande com o punk rock.

Neste que é o seu segundo tomo em nome próprio para a Cuneiform, reafirma uma fixação pelas potencialidades do formato de trio, quer em termos de poderio sónico, quer do equilíbrio que a configuração demanda. É retomada a colaboração com dois nomes fundamentais do jazz hodierno, o contrabaixista Michael Formanek e o percussiobaterista (como muito certeiramente lhe chamou Gonçalo Falcão aqui: https://jazz.pt/ponto-escuta/2020/10/14/tim-bernes-snakeoil-deceptive-4-live-intakt/) Ches Smith, que já frutificara em “Palo Colorado Dream” (2014).

A telepatia a três já então demonstrada adquire aqui uma significativa evolução, com as interações pitagóricas com Formanek e Smith a guindarem-se a um novo patamar de interesse. Pirog expande a sua abordagem e acopla à guitarra sintetizadores “vintage” e outros recursos tecnologicamente mais recentes, confirmando-se não apenas como um dotado guitarrista como enquanto compositor de ideias próprias. O próprio explica o “modus operandi” em notas de apresentação: «O uso de sintetizadores de guitarra por John Abercrombie e Allan Holdsworth é muito interessante para mim e quis explorar as possibilidades de timbre disponíveis utilizando esses instrumentos no processo de gravação.»

Estão em minoria as peças com duração superior a dois minutos. “Dog Daze” abre o álbum como se de banda sonora para imagens inventadas se tratasse, nuvem que se dissipa para dar lugar a uma descarga elétrica ribombante. “Dawn Cloud”, hipnótica, tem dedilhados claros que se espraiam na psicadélica “Honeymoon Room”, a remeter para o universo “floydiano” de início de setentas. “Sitting Under Stars” é vinheta de serenidade folk e a mais intrigante “The Severing” traz à memória algum do melhor Terje Rypdal. Notável exercício tripartido, “Adonna the Painter” conta com a solidez inatacável do contrabaixo de Formanek a encontrar sinergias no requinte com que Smith trabalha os címbalos.

Com as suas linhas mais abstratas, a peça-título parece funcionar como linha divisória para a segunda metade do álbum. “Mori Point” é marcada pela tensão entre espasmos eletrónicos e a pulsação frenética imposta pelo baterista. “Beecher” muda de cenário, numa planante aproximação a algumas coordenadas do rock progressivo. “Spinal Fusion” ironiza com um hard-rock oco, misturando-lhe sons que parecem saídos de um ZX Spectrum em modo esquizofrénico. Tudo para chegar à melhor peça do disco, “Untitled Atlas”, onde a guitarra caleidoscópica do líder se une na perfeição à vibração poderosa de Formanek e às pontuações de Smith.

Esteticamente incategorizável, “Pocket Poem” é a prova da relevância de Anthony Pirog enquanto guitarrista de quem se pode esperar tudo. Não recomendado a puristas seja do que for.

  • Pocket Poem

    Pocket Poem (Cuneiform)

    Anthony Pirog

    Anthony Pirog (guitarra eletrica, eletrónica); Michael Formanek (contrabaixo, baixo elétrico); Ches Smith (bateria, percussão, eletrónica)