Luís Vicente / John Dikeman / William Parker / Hamid Drake: “Goes Without Saying, But it’s Got to Be Said” (JACC Records)

Rui Eduardo Paes

O trio de John Dikeman com dois baluartes da tradição do free jazz nos tempos presentes, William Parker e Hamid Drake, pré-existia a este registo ao vivo gravado na lisboeta ZDB antes de sermos assolados pelo Covid-19, mas neste novo álbum é o nome do português Luís Vicente que surge em primeiro lugar. Não que tal protagonismo se reflicta particularmente na música tocada – o trompetista é apenas o anfitrião do concerto, não tendo maior presença que os demais. A dita música é um bom exemplo da interacção colectiva proporcionada por este tipo de abordagem, se bem que nos moldes do jazz, com papéis distintos para os instrumentos melódicos, trompete e saxofone tenor, que ocupam a dianteira, e os rítmicos e de acompanhamento, contrabaixo e bateria (com Parker, o contrabaixista, a desdobrar-se em outros instrumentos).

As atmosferas criadas e o figurino discursivo remetem-nos de imediato para o free original, sem que a circunstância signifique que se segue uma lógica reprodutora dos padrões históricos. Não há repescagem e sim continuidade: Parker e Drake vêm ambos desse património, e pela via mais directa no caso do primeiro. Com o cântico do baterista no tema “3rd Sentence” e o guimbri de Parker, é mesmo nas raízes mais profundas do free jazz pan-africanista que as construções assentam. Que Luís Vicente soe tão autêntico e vernacular neste contexto é de salientar muito especialmente. Longe tem ido este jovem músico no circuito internacional e se em poucos anos chegou onde chegou nem conseguimos imaginar o que fará daqui por diante.