Pliable

In Layers: “Pliable” (FMR)

FMR

António Branco

Quatro anos depois da estreia homónima, o quarteto multinacional In Layers – os portugueses Luís Vicente no trompete e Marcelo dos Reis na guitarra, a que se juntam o pianista islandês Kristján Martinsson e o baterista holandês Onno Govaert – regressa (novamente com selo da inglesa FMR e uma bela capa de Nuno Martins) e eleva a já alta fasquia. Os mesmos intervenientes e o mesmo projeto, mas uma notória evolução em termos estéticos e técnicos, o que torna este segundo tomo num claro salto em frente, certamente fruto de experiências musicais conjuntas noutros contextos.

O conceito central do disco é o de “maleabilidade” (“Supple”, “Pliable”, “Malleable”, “Ductile” e “Pliant” são nomes de trechos que apontam nesse sentido), aplicada aqui à matéria sonora, moldada pelos quatro músicos como se de uma argila branda se tratasse. «Tornou-se imediatamente a nossa abordagem e estética, uma música cheia de várias pequenas intervenções constantemente contrariadas por um outro elemento, tornando-se assim uma música viva e à flor da pele e a resposta de cada um de nós», diz Marcelo dos Reis à jazz.pt.

Em contraste com o disco de estreia, o guitarrista aposta aqui na variante elétrica. O que se mantém inalterado é o seu contributo decisivo, sobretudo quando se foca em papéis estruturantes – como que compondo num quadro de livre improvisação: «A escolha da guitarra elétrica para este disco foi feita por sentir que faltava uma base mais consistente, sónica, elétrica e até de elasticidade na música. Não existe baixista na banda, logo o meu papel fica um pouco mais dividido entre providenciar “drive” e também solar. Mas é definitivamente este o instrumento que queremos para o projeto.»

O trompete de Luís Vicente volta a espantar pela sua natureza polifacetada, adquirindo diferentes matizes quando perscruta motivos concordantes (reforçando ideias) ou disruptivos, parecendo por vezes navegar noutras dimensões, o que se revela muito enriquecedor para o cômputo sonoro global. «Explorar as potencialidades de expressão do instrumento é algo que me fascina, uma busca diária em que continuo a ser surpreendido com a diversidade das paletas sonoras que o instrumento oferece e que encontro no meu imaginário», sublinha o trompetista.

O que se escuta em “Pliable” – totalmente improvisado – foi gravado ao vivo no Salão Brazil, na histórica baixa de Coimbra, espaço de atmosfera especialíssima que funciona como “quinto elemento” de um processo natural, em que improvisações “micro” se aproximam e afastam dentro de uma moldura improvisacional mais ampla. Hiperdetalhada, a música faz-se de explorações, inquietações, surpresas, descobertas. Os músicos recorrem a diferentes técnicas para expandir as possibilidades sónicas dos respetivos instrumentos, sem que tal represente um fim em si mesmo, mas um meio para trabalhar texturas e ambientes.

As ideias seguem o seu caminho, assumidas e desenvolvidas equilibrando individualidades e assegurando a coerência do todo. Este é, aliás, um aspeto essencial: há aqui uma química especial, que tanto se nutre do conhecimento prévio que os quatro músicos têm uns dos outros, como também da presença subliminar de uma imprevisibilidade motriz.

A tensão omnipresente reclama desenlace, mas vai-se mantendo e adquirindo várias configurações, instalando-se sempre a dúvida quanto ao que vai acontecer a seguir, com isto alimentando o próprio processo criativo. “Supple” tem um trompete fantasmagórico no centro do que acontece, acolitado pelas cordas da guitarra e as entranhas do piano. Depois, na mais agitada “Malleable”, destaca-se a assertiva guitarra de dos Reis, que entabula jogos de ação-reação espontâneos com o trompete.

Alguns dos melhores momentos da jornada chegam com “The Whippy”, com o piano efervescente de Martinsson em ligação próxima com a guitarra e a bateria nervosa de Govaert – com indisfarçáveis laivos jazzísticos –, urdindo a base de onde emerge o impecável trompete lunar de Vicente. Tudo coalesce em crescendo, com a guitarra a aditar espessura. A interação entre guitarra e bateria no início de “Elastic” prometia angulosidades, mas tudo serena com as notas esparsas de piano, as texturas construídas pela guitarra e o trompete em estado de graça, noutra das mais conseguidas passagens do disco.

Em “Ductile” regressa a delicadeza etérea do piano, a bateria e a guitarra ricas de pormenores e o notável desdobramento de registos explorado por Vicente, convocando uma montanha-russa de emoções. A terminar, “Pliant” mostra cordas em sobressalto e um Govaert relaxado, como que a dizer «missão cumprida». “Pliable” demanda audição cuidada, mas o ouvinte mais exigente não deixará de nele encontrar abundantes razões para satisfação inteira.

  • Pliable

    Pliable (FMR)

    In Layers

    Luís Vicente (trompete); Marcelo dos Reis (guitarra elétrica); Kristján Martinsson (piano); Onno Govaert (bateria)