Vítor Joaquim: “The Construction of Time” (Edição de Autor)

Rui Eduardo Paes

O nome de Vítor Joaquim não é estranho ao circuito da livre improvisação em Portugal, dadas as associações do músico electrónico a um grande número de improvisadores, numa lista que inclui os nomes de Carlos “Zíngaro” e do saxofonista norte-americano Joe Giardullo. Neste seu novo álbum ouvimo-lo com João Silva, uma das figuras emergentes do trompete jazz / improv no nosso país, que com ele tocou no Lisboa Soa Festival em Setembro passado. O tema escolhido para o álbum é a noção interior que cada um de nós tem do tempo que passa, com todas as implicações daí derivadas, e designadamente a subjectiva impressão de impermanência e relatividade das nossas vidas. No interior do “digipack” Joaquim cita um texto de Carlo Rovelli publicado pela New Scientist: «A nossa percepção do tempo é emoção (…) A emoção do tempo não é o nevoeiro que torna difícil para nós entender o tempo e sim o que o tempo é para nós.»

Numa abordagem mista de experimentalismo electroacústico e de ambientalismo – um ambientalismo que tanto chega às fronteiras do lounge como absorve específicos elementos do jazz –, os fluxos de som em que somos mergulhados ao longo do disco incluem, para além do omnipresente trompete, uma série de “field recordings”. Mais concretamente, emissões radiofónicas e televisivas das invasões no Iraque nas décadas de 1990 e 2000 ou do canto Bororó de Mato Grosso, no Brasil. O efeito obtido é assaz curioso: participamos de alguma forma (a escuta torna-se intervenção) nos acontecimentos do tempo, mas numa suspensão existencial que, em simultâneo, nos coloca fora do tempo e até do espaço, num indeferido e numa deslocalização que colocam o passado e o aqui num presente tornado eterno e numa nuvem sem chão. A música é melancólica, planante, misteriosa e dolorosamente bela, um espelho do “annus horribiles” que 2020 está a ser.