André B. Silva: “The Guit Kune Do” (Carimbo Porta-Jazz)

Gonçalo Falcão

Cinco guitarristas (o próprio André B. Silva, AP, Eurico Costa, Francisco Rua e José Miguel Moreira), um baixista (João Próspero) e um baterista (Diogo Silva). Assim é a formação que André B. Silva escolheu para o disco de estreia deste grupo eléctrico. Conhecemo-lo já como guitarrista do Rite of Trio e agora ficamos a saber do Guit Kune Do, um projecto que claramente quer explorar as possibilidades do instrumento, através de uma formação inusitada. Na primeira audição é quase impossível não nos lembrarmos do trabalho de Robert Fripp, especialmente o dos discos entre 1981 e 1984 (“Discipline”, “Beat”, “Three of a Perfect Pair”), quando aparecem de modo mais claro as estruturas baseadas em ciclos rápidos de escalas geométricas na guitarra eléctrica e aquele som único, semi-sintetizado, da Roland G-808. Também somos remetidos para o trabalho com The League of Crafty Guitarists, formação em que estes processos se tornam mais claros e evidentes. São bons exemplos destas memórias “IHNIWID” e “Wakey Wakey, Stellar Snarkey”.

Os temas assentam em sobreposições de camadas de ciclos. Aparece depois uma outra tipologia e um ambiente mais “funky” (retro vintage) e é aqui que a música por vezes derrapa para um John Scofield num dia bastante mau (desorientado até). Em “Dogma Days” ou “Quarantino” há solos bons e outros vazios e pirotécnicos, ouve-se uma grande vontade melódica (todas as músicas se resolvem, de uma maneira ou de outra. em formas cantáveis), mas também se resvala para o uso de sons e propostas musicais francamente desinteressantes, que parecem focadas na criação de bases fáceis para os guitarristas mostrarem as suas capacidades técnicas. “The Guit Kune Do” celebra as guitarras num disco que parece apontar caminhos muito diferentes e que teria beneficiado com um produtor autoritário. Testou positivo no vírus dos guitarristas.