Electric Meditations

The Silence: “Electric Meditations” (Drag City)

Drag City

Gonçalo Falcão

A chicagoana Drag City é uma editora de cruzamentos. Com um pé no pop-rock para gente inteligente e outro noutras músicas, não deixou de nos surpreender quando, pela primeira vez, reeditou em vinil o “Guitarra Portuguesa” de Carlos Paredes. É uma “label” feita por gente que gosta de música e não preocupada com classificações e gavetas. Aparece agora com um disco excepcional que está entre o rock cheio de blues e o free jazz, num lugar oriental muito particular.

Os japoneses The Silence são uma mistura completamente nova. Os ingredientes são os clássicos: vêm de Inglaterra e dos Estados Unidos dos anos 1960, com um rock que estudou os blues e pratica muita liberdade. Mas a mistura, o modo de usar estes ingredientes, é totalmente novo e excitante. Eu sei o que isto é, mas isto não é aquilo que eu sei. A banda continua a sua viagem à procura de planetas desabitados com o seu quinto álbum de estúdio (o GOK Studio de Tóquio), o segundo que grava em quarteto apenas com métodos analógicos. A primeira audição tira-nos o tapete. Ficamos com a sensação de que é uma banda que, depois de tocar com Grateful Dead, Sun Ra e Ornette Coleman, foi criogenada, para ressuscitar em 2020.

“Electric Meditations” começa por nos atacar com um rock honesto. As vozes ainda vêm com restos da fúria dos primeiros discos dos Black Sabath, à medida que o grupo constrói um crescendo feito de ciclos repetitivos. Seguimos para um “Butterfly Blues” em que a amálgama volta a ser impensável: um blues “funky” à Johnny Guitar Watson, com uma flauta impossível a solar e uma voz simples e directa. Que louquice. Que som. Que mistura tão curiosa!

Ainda surpreso com todos estes acontecimentos improváveis e só com duas músicas no bucho já estou no Discogs à cata de todos os outros vinis dos nipónicos. Explicando: os The Silence montam a barraca com Masaki Batoh na guitarra e na voz, Taiga Yamazaki no baixo e na voz, Futoshi Okano atrás do “kit” de bateria e Ryuichi Yoshida no saxofone barítono e na flauta (quando toca barítono ouvimos facilmente ecos dos Morphine).

Na terceira faixa aterramos numa folk travestida. “Fuzz” na guitarra e um clarinete tiram a música do expectável e fezem-na voar para um lugar esquisito. A meio do disco, “Improvisation”, um longo improviso, senta o ouvinte de jazz no seu sofá mais familiar. Abre com uns sinos, surge uma guitarra gutural e a primeira parte da improvisação faz-se apenas com elementos simples, a espaços, num grupo que sabe rockar tão bem como sabe ouvir, dar espaços, fazer sons. Ainda encantados com a alternância, aparece o clássico de Bo Diddley “I’m a Man”. É aqui que percebemos que estes senhores não só conhecem os pioneiros americanos do rock como percebem bem a releitura feita pelos ingleses (Bluesbreakers, Rolling Stones, Alexis Korner, Yardbirds e toda essa geração).

“Electric Meditations” é o meu disco de descoberta deste grupo japonês que me faz querer andar para trás e conhecer os anteriores. De onde isto vem haverá certamente muita outra coisa bela. Num tempo retro de repescagens não é fácil encontrar rock estimulante. A bem da verdade, isto não é um disco de rock, mas também não é um disco de jazz. É rock para gente com o ouvido aberto e jazz para gente que gosta de rock. É um prazer.

  • Electric Meditations

    Electric Meditations (Drag City)

    The Silence

    Masaki Batoh (voz, guitarra); Ryuichi Yoshida (saxofone barítono, clarinete, flauta); Taiga Yamazaki (baixo, voz); Futoshi Okano (bateria)